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Luiz Carlos Merten

19 Maio 2007 | 20h08

CANNES – Moore or More? Michael Moore veio hoje ao 60º festival para dizer que é americano, mas não está em busca de mais. ‘Quando queremos as coisas, nós as tomamos’, ele avalia. Michael Moore poderia ter vindo com seu novo documentário, Sicko, na competição. Mas, como ele diz, o filme não é sobre a crise moral e a doença que corrói o sistema de saúde nos EUA. É sobre outra coisa. O filme mostra os efeitos devastadores que a privatização da saúde está causando nos americanos. São histórias de arrepiar. As grandes companhias, que têm nomes como Humana, registram lucros bilionários. Seus executivos ganham milhões de dólares e ganham ainda mais se aumentarem os lucros, lesando os interesses dos segurados. Há uma indústria que consiste em tomar dinheiro do paciente em potencial e depois negar-lhe, por meio de mil entraves burocráticos, os serviços a que ele acha que tem direito. Michael Moore diz que isso é parte de Sicko, mas o filme não é sobre isso, como Tiros em Columbine não é só sobre armas e Fahrenheit não é só sobre os efeitos do 11 de Setembro na vida americana. MM está preocupado com este assustador mundo novo em que as pessoas, nas sociedades ditas evoluídas, só se preocupam com elas e nem um pouco com os outros. Ele faz filmes na expectativa de que o nós triunfe sobre o eu. Por conta disso, desistiu de competir em Cannes este ano. Já tem uma Palma de Ouro. Não precisa de outra, mas precisa do holofote que o maior festival do mundo lhe proporciona. MM continua manipulador, mas é único no que faz. Você precisa ver Sicko. MM fura o bloqueio americano e vai a Cuba para mostrar que a ilha de Fidel Castro pode não ter papel higiênico nem carros novos, mas possui um sistema de saúde que os EUA não oferecem nem aos seus heróis de 11 de Setembro. A França, o Canadá não são países de economia socialista e, no entanto, os cidadãos dispõem de uma qualidade de vida (e de atendimento) que os americanos não podem nem sonhar. Mesmo a Dama de Ferro, Margaret Thatcher, não desmantelou o serviço de saúde que o governo oferece na Inglaterra. Ela privatizou tudo, menos isso. Haveria uma revolução, se tentasse fazê-lo, explica um especialista no assunto. O mais incrível – a administração Bush convocou MM para dar esclarecimentos nesta terça-feira. Como ele violou o embargo a Cuba, o Departamento de Justiça quer embargar a estréia de Sicko em junho, confiscando o material filmado na ilha. Isso ainda vai dar muito pano para manga, mas, como cinema, eu, pelo menos, acho que este é o melhor documentário de MM. E ele continua demonizando George W. e seus aliados. Numa cena, congressistas vão entrando num palco e um letreiro indica quanto cada um deles custa para a indústria farmacêutica. Quando entra o presidente, para assinar uma lei que ferra ainda mais o segurado, o letreiro informa quanto George W. Bush ganhou dessa indústria para se instalar na Casa Branca. É vergonhoso, e tem gente que acha que ir contra isso é ser contra o futuro, é ter compromisso com o passado. É compromisso com a decência, isso sim.