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Mizoguchi! Visconti!

Luiz Carlos Merten

10 Fevereiro 2018 | 12h00

A físio vai me matar, mas antes de tratar do joelho vou acrescentar outro post rapidinho. Animei-me um pouco com a perspectiva de que teremos, nas próximas semanas, duas grandes retrospectivas em São Paulo. Não sei exatamente onde será a de Kenji Mizoguchi, mas a de Luchino Visconti deve ocorrer no Cinesesc. Todo Visconti. Onze cópias em película, as restantes em digital, tudo material restaurado. E Mizoguchi! Revi em Lisboa, no ano passado, A Vida de O’Haru e Rua da Vergonha. Muito antes de ver qualquer filme de Mizoguchi, já tinha ouvido falar de seu olhar compassivo para as mulheres, fossem a imperatriz ou a prostituta. Sempre tive essa ideia atravessada, e sei que me sujeito a ser massacrado, de que autores como Douglas Sirk e Joseph L. Mankiewicz fizeram os melhores filmes sobre o universo feminino, da mesma forma que duas instituições do chamado cinema ‘viril’, Robert Aldrich e John Huston, fizeram os melhores filmes sobre homossexualidade. Não me perguntem qual é o sortilégio, porque não saberia responder. Teria de escrever um livro para isso. Não sei se teria tempo, mas valeria tentar. Todo esse debate sobre gêneros, e cotas. Os últimos editais do Sá Leitão foram um escândalo de direcionamento – temas que os cineastas vão poder tratar como quiserem! -, e não ouvi muito protesto das minorias. A coisa está evoluindo para, em nome da justiça histórica, os brancos heteros serem excluídos como inimigos. Boa noite a todas… Não deveria, em nome da correção, ser todes? Tudo bem que ia parecer coisa do Ronald Golias, com sua língua meio enrolada para provocar riso. Querendo avançar, seguimos atrasados nesse debate. Outro dia, peguei-me pensando em Uma Mulher Descasada, de Paul Mazursky. 40 anos, e ainda está à frente de muita brigada feminista atual. Bem faz Helena Ignez, guerreira que trabalha à margem do sistema. Tem todo o meu apoio e simpatia. Nunca fui ‘mizoguchiano’ de carteirinha, mas tenho de admitir que o conheço pouco. Sua filmografias é uma das mais extensas no Dicionário de Cineastas de Jean Tulard. No Ocidente, é reconhecido por um pequeno conjunto de filmes da sua fase áurea. Pessoalmente, sempre preferi Yasujiro Ozu e Masaki Kobayashi. Para mim não existe filme japonês mais belo que Rebelião e a trilogia Guerra e Humanidade está no meu panteão. Mas tenho os ‘meus’ Mizoguchis – curiosamente, são dois filmes que ele fez de forma consecutiva em 1954. O Intendente Sansho e Amantes Crucificados. Estarão na retrospectiva, espero.