Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Mistério de Suely

Cultura

Luiz Carlos Merten

17 Novembro 2006 | 09h16

Já falei dos vários nacionais que estréiam hoje, mas vou voltar a falar de O Céu de Suely, do Karim Aïnouz, que espero encontrar no Festival de Tessalônica, na Grécia, para onde embarco hoje. Já falei da atriz Hermila Guedes, da delicadeza da direção do Karim, da beleza triste da história de Hermila (é o nome da personagem) que organiza uma rifa do próprio corpo, convencida de que é melhor dar a um só homem, numa noite, do que deitar com vários, para conseguir o dinheiro de que necessita. O Céu de Suely pertence àquela categoria de filmes ‘secretos’, no qual o que as pessoas dizem é sempre menos importante do que o que elas silenciam. Olhares, gestos, silêncios, é por aí que elas falam (Suely, Georgina, a tia, a avó). Quero falar do fim de O Céu de Suely. Prometo não dizer qual é, mas Karim disse que fez o filme com este desfecho na cabeça. Nunca pensou em outro. Durante um certo tempo, a tela fica vazia. Saem os humanos, como no fim de O Eclipse, dre Antonioni. Fica só a paisagem, a estrada como metáfora da vida. Quando vi, tive a sensação de que eram longos minutos. Minha filha Lúcia teve a mesma sensação. Ficamos, ela e eu, em diferentes sessões,. de coração na mão. São apenas 40 segundos, o diretor me esclareceu. O tempo como medida interior, relativa. Este final maravilhoso coloca um problema. É um happy end ou não? Pense. O Céu de Suely é um belo filme. Vai concorrer em Tessalônica. Espero comentar com vocês como os gregos vão recebê-lo.