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Luiz Carlos Merten

21 Julho 2008 | 19h22

WROCLAW – Parto amanhã para Paris, onde fico duas noites, antes de regressar para o Brasil. Ainda faço uma última apresentação de um filme da retrospectiva do cinema brasileiro – ‘São Paulo S.A.’, de Luiz Sérgio Person -, antes de seguir para o aeroporto. Estou escrevendo passado da meia-noite, o que significa que, tecnicamente, já estou no amanhã da Polônia, embora ainda seja ‘ontem’ para vocês, no Brasil. Acabo de ver o filme de Ermanno Olmi, ‘Centochiodi’. Estou siderado. O filme é de 2006, mas é possível que tenha ficado parado estes dois anos. Nunca havia ouvido falar de ‘Centochiodi’ e a única referência do catálogo é que ele passou em Roterdã, 2008. Olmi fez uma parábola, mais uma, sobre o Cristo. ‘Ed venne un uomo’, como no seu filme de 1965, inspirado no exemplo do Papa João XXIII. Este homem é um professor – professorino, porque parece um estudante -, que comete uma blasfêmia aos olhos da Igreja (e da Universidade Católica de Bolonha). Ele trespassa livros sagrados com um cravo – cem cravos – como um ato de protesto. Todos os livros que concentram a sabedoria humana não valem um café com um amigo. O velho padre, seu mestre, ama os livros mais do que a humanidade, e quando ele diz ao professorino que ele terá de pagar por seu crime no Julgamento Final, a resposta é que o próprio Deus terá de responder por sua indiferença pela dor humana. Repleto de referências religiosas, o filme é de uma beleza de cortar o fôlego. O professorino, qual um Cristo moderno, integra-se a uma comunidade que vive à beira do Rio Pò e que corre o risco de ser desalojada, porque não é importante aos olhos da sociedade organizada. O legado do professorino para esta gente simples é a cidadania, mais do que a religiosidade. São raros os filmes como este do Olmi, que propõem verdadeiras experiências estéticas, e éticas. Um cinema do humano. havia uma platéia predominantemenjte jovem que aplaudiu ‘Centochiodi’ durante e após a projeção. O próprio Olmi diz que será seu último filme para cinema. Não entendia o que ele queria dizer, antes de assistir a ‘Centochiodi’. Depois, fica claro como água. O filme é o testamento de um homem – de um artista – que acredita na Graça. Tudo o que Olmi queria dizer sobre Deus e os homens, sobre o sagrado e o profano, sobre a natureza – sempre uma personagem forte em seu cinema, como provam ‘A Árvore dos Tamancos’ e ‘O Segredo do Bosque Velho’ – está aqui concentrado. Tudo o mais seria supérfluo. Que coisa! Espero que amanhã este encantamento não tenha se dissipado.