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Mistério de ‘Irène’

Luiz Carlos Merten

28 Maio 2009 | 17h18

Confirmadíssimo pelo novo assessor de imprensa da Paris Filmes, o Marcos. Havia encontrado Sandi Adamiu e Márcio Fracaroli no aeroporto, em Paris, a caminho de Cannes, e eles me anunciaram que estavam negociando os dois filmes coreanos da seleção oficial, o Park Chan-wook e o Bong Joon-ho. Gostei mais de ‘Mother’, do segundo, na mostra Un Certain Regard, do que de ‘Thirst, This Is My Blood’, do primeiro, na competição, mas Park Chan-wook é cult e quem gosta dele vai querer conferir seu filme de vampiros, independentemente do que eu disser. A propósito, o fecho da trilogia de vingança do diretor sul-coreano – ‘Lady Vingança’ – passa domingo na TV paga, às 19h55 no Telecine Cult. Adoro a violência estilizada do filme, a coreografia ao mesmo tempo elegante e bárbara e a cara pálida daquela mulher – a atriz Lee Yeong-ae – que vai se tingindo de sangue. Mas tem outro filme que a Paris adquiriu em Cannes e sobre o qual ainda não falei (nem durante o festival). Preparem-se para ‘Irène’, de Alain Cavalier. Acho que já falei aqui sobre isso, mas tenho o maior fascínio por esse diretor que talvez seja o mais radical da França. Sei lá, é temerário dizer isso. Afinal, Depardon, Resnais, Rivette, Rohmer fazem um cinema ultra-exigente, mas o Cavalier me fascina de maneira particular. Diretor de filmes políticos que não fizeram sucesso no começo de sua carreira -‘Le Combat dans l’Ile’ (Paixões e Duelo), com Romy Schneider, e ‘L’Insoumis’/Terei o Direito de Matar?, com Alain Delon -, ele se voltou para o cinema comercial com ‘La Chamade’ (A Chamada do Amor), com Catherine Deneuve, mas não era sua praia e Cavalier ressurgiu, anos mais tarde, com ‘Thérèse’, investigando a santidade de um ponto de vista não teológico, mas cotidiano. Seus filmes seguintes foram experimentando cada vez mais – ‘Libera Me’, por exemplo. Agora, com ‘Irène’, que dura pouco mais de uma hora – 68 min -, Cavalier faz seu filme mais pessoal e confessional, usando uma câmera mini-DV. A Irène do título é Irène Tunc, ex-Miss França, uma mulher deslumbrante por quem ele era apaixonado e a quem tentou transformar numa estrela, mas ela morreu num acidente. Quarenta – ou quase – anos depois, Cavalier encontrou o diário da ex-mulher e resolveu fazer este filme único. Fiquei fascinado e acho muito legal que, entre um filme teen e outro de horror, a Paris invista num filme tão fora das normas. Falei muito sobre os grandes filmes que vi em Cannes – o Haneke, o Audiard, o Suleiman. Mas outros filmes me falaram de uma maneira muito especial, o de Cavalier, o de Coppola. ‘Tetro’ é uma coisa de louco. Como, num mesmo festival, tivemos dois filmes em preto e branco tão requintados, o de Haneke, ‘A Fita Branca’, título que terá no Brasil, e ‘Tetro’? Um dos críticos que fizeram a cobertura de Cannes para ‘Le Figaro’ – não saberia dizer, porque o texto ainda estava assinado no pé, só as iniciais – disse que o de Coppola foi o maior filme de todo o festival. Se foi ‘o’ maior, não sei, quero rever, no Festival do Rio ou na Mostra. Mas que é um p… filme, podem crer que é.

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