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Luiz Carlos Merten

21 Agosto 2008 | 11h12

O Brasil acaba de ganhar no vôlei feminino. Com garra, as meninas chegam ao ouro. Ia dizer – nosso único ouro, mas houve o da natação. Confesso que vi pouquíssima coisa desta Olimpíada. Assisti ao show de abertura, assinado por Zhang Yimou – que motivou um comentário aqui no blog; alguém achou meu post exagerado, dizendo que qualquer desfile de escola de samba é mais emocionante; e eu não sei, depois de desfilar na Mocidade Alegre, em São Paulo, e na Mangueira, no Rio? –, mas depois estava em Gramado e passei a semana vendo filmes e participando de coletivas e debates. Esqueci-me da Olimpíada. De volta a São Paulo, arriscava uma olhada aqui, outra ali, mas me irritei com a cobertura – acho que do canal SporTV –, quando a atleta brasileira perdeu sua vara (seria cômico, se não fosse trágico…) e o repórter, provavelmente instruído para fazê-la chorar, tentou de tudo e quando viu que não estava conseguindo jogou baixo, falando no pai e na mãe dela, tadinhos, que estavam assistindo à derrota da filha pela TV. Pelamor de Deus… Mas, enfim, minha colega Eliana Souza, a Lili, estava há pouco olhando na rede as fotos do checo que caiu do cavalo. A gente olha aquilo e diz, ó que pena… Mas para o sujeito, que se preparou durante quatro anos (e talvez mais) pode ser um abalo para a vida toda. Não sei, mas por uma questão de temperamento, tendo muito a fantasiar. Crio histórias no meu imaginário e, embora a vitória me produza euforia – o triunfo do esforço humano –, tenho essa atração pela tragédia dos derrotados. Vendo a foto do atleta caído, sabem o que me veio à mente? ‘Lorde Jim’, que Richard Brooks adaptou do romance de Joseph Conrad. Já falei aqui no filme e o meu problema é que ‘Lorde Jim’ ficou estacionado no meu imaginário lá nos anos 60. Nunca revi o filme. Amava Richard Brooks, que talvez fosse o mais romântico dos cineastas norte-americanos de sua geração – mais do que Nicholas Ray – e que fez todos aqueles filmes que me encantavam sobre segunda chance. Suas adaptações de Tennessee Williams (‘Gata em Teto de Zinco Quente’ e ‘Doce Pássaro da Juventude’) e Dostoievski (‘Os Irmãos Karamazov’, que todo mundo acha edulcorado, mas eu choro como uma anta, não sei se anta chora, com o Yul Brynner e o David Oppatoshu) me encantam e eu acho muito dura, muito triste aquela impossibilidade de segunda chance na adaptação que ele fez de ‘À Sangue Frio’, de Truman Capote. Só que os filmes de Richard Brooks do meu coração são outros – ‘Lorde Jim’ e ‘Os Profissionais’. Aquela descrição que ele faz do temperamento mórbido do marinheiro interpretado por Peter O’Toole, do seu medo diante do perigo – quando ele antecipa o naufrágio do Patna, que afinal não ocorre, mas Jim deserta do navio, em busca de salvação –, aquilo me toca de uma forma muito especial. Jim vira um pária e a segunda chance surge durante a revolta em Patusan (Patna mais ‘us’, nós, como ele diz), quando o covarde vira herói e, em nome da graça (re)adquirida, se sacrifica por um ideal, na verdade para nunca mais fugir de si mesmo. O que é aquilo? Sempre achei, ó loucura, que Brooks fez aquele filme para mim ou então que eu construí um filme meu a partir do que ele me propunha. Um momento de fragilidade e uma vida inteira de angústia. Sou o primeiro a assumir que fantasio muito. Sei bem que as coisas não são as mesmas, mas foi em ‘Lorde Jim’ que pensei diante da foto do checo caído de seu cavalo. O filme será tão bom quanto permanece na minha lembrança? Revi recentemente ‘Os Profissionais’, que tem ‘aquela’ fotografia do Conrad Hall, e o diálogo de Burt Lancaster com sua antiga amante que virou revolucionária – a personagem de Marie Gomez – continua uma das coisas mais belas que já vi, uma das mais libertárias, preparando os mercenários para a ação final em defesa de Jesus Raza (Jack Palance) e sua amada Claudia Cardinale. Misturei Olimpíada com cinema, equitação com drama nos mares e com western. Para encerrar, um dos últimos filmes de Brooks foi sobre homens e cavalos, ‘O Risco de Uma Decisão’, sobre uma mítica corrida no Velho Oeste. Na época, 1975, não gostei muito, mas revi ‘Bite Bullet’ (título original) depois e achei uma afirmação (a derradeira…) do credo humanista de Richard Brooks. Ele morreu em 1992 e muito tempo depois, acho que já nos anos 2000, Rubens Ewald Filho entrevistou Jean Simmons, com quem Brooks foi casado (e fez dois filmes, ‘Entre Deus e o Pecado’ e ‘Tempo para Amar, Tempo para Esquecer’). Morri de inveja do Rubinho, no bom sentido, quando ele me contou que falaram de Brooks e Jean, já velhinha, se emocionou tanto que chorou, sem necessidade de golpe baixo. Nunca vi a entrevista na TV, mas muito provavelmente teria chorado junto.

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