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Luiz Carlos Merten

28 Outubro 2007 | 10h21

Estou aqui na redação do Estado, saindo para a coletiva de apresentação do júri da Mostra, que coincide com a divulgação dos filmes escolhidos pelo público para concorrer ao prêmio Bandeira Paulista. Conversei ontem à tarde com um dos jurados – Hirokazu Kore-eda, o grande diretor de ‘Maborosi’, ‘Depois da Vida’ e ‘Ninguém Pode Saber’. Conversamos sobre o tempo e a luz em seu cinema – com alguma dificuldade, pois a entrevista fica sempre meio truncada quando se fala por meio de intérprete -, mas saí de lá com a confirmação do que Leon Cakoff antecipara na coletiva de apresentação da Mostra deste ano. Kore-eda já tem pronto o roteiro do filme que quer fazer no Brasil, em parceria com Walter Salles. Vai tratar do episódio mais sangrento da história da imigração japonesa no País, a vingança contra os ‘corações sujos’, japoneses assim chamados por serem considerados traidores da pátria, ao admitir a derrota do Japão na 2ª Guerra. O episódio inspirou o livro de Fernando Moraes, cujos direitos foram adquiridos por Vicente Amorim. Teremos assim, ao que tudo indica, dois filmes sobre os ‘corações sujos’. Achei legal o que me disse o Kore-eda. ‘Hana’, seu novo filme, uma história de samurais, trata de vingança e o mundo, segundo o diretor, está excessivamente obcecado pela vingança, após o 11 de Setembro. O problema é que isso, além de não resolver o problema, gera mais e mais violência. Rapidinho, quero dizer que consegui assistir ontem à noite a ‘Conversas com Meu Jardineiro’, de Jean Becker. Gostei, e gostei mais ainda do ator Jean-Pierre Darroussin, que faz o jardineiro. Mas também fiquei chocado. No sábado passado, me enganei de data e corri ao Shopping Eldorado achando que ia ver ‘Conversas’. Cheguei lá, peguei o ingresso e nem conferi. Entrei, a sala estava lotada, mas era para ver ‘O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford’, filme do qual gosto muito. Ontem, havia uma meia-dúzia de gatos pintados para ver o filme francês. Onde estava o público da Mostra, os desbravadores de cinematografias? O blockbuster que estréia logo todo mundo queria ver antes. É assim que funciona? O pior é que o público perdeu um belo filme, o do Becker. Ah, sim, como não sei se consigo postar alguma coisa em seguida – depois da coletiva do júri, tenho de voltar à redação para redigir o texto -, quero dizer que meu programa preferencial de hoje é assistir, às 17h30, no CineSesc, a ‘Tabu’, o clássico que nasceu da improvável reunião de dois gênios tão distintos quanto Friedrich Wilhelm Murnau e Robert Flaherty. Vi este filme muito jovem, em Porto Alegre, cujo Clube de Cinema tinha (tem?) uma cópia de ‘Tabu’. Aliás, o Clube de Cinema de Porto Alegre foi um dos raros, no Brasil, que nunca deixou de funcionar. O lendário Paulo Fontoura Gastal, pai da crítica gaúcha, dizia que era impossível gostar de cinema não colocando ‘Tabu’ no panteão das obras-primas. Não exagerava, vocês vão ver.