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Luiz Carlos Merten

30 Julho 2009 | 10h31

Fiz ontem o post – longo – sobre Michael Curtiz e me esqueci. Outro dia, alguém – Helga? – me perguntou como conseguir o filme de Curtiz sobre Cole Porter. ‘Night and Day’, que no Brasil se chamou ‘A Canção Inesquecível’, é de 1946. Existe, sim, o DVD e se a Helga, acho que é ela, entrar no Google e digitar o título do filme, acrescido de DVD, vai encontrar à venda (o curioso é que por preços variados, R$ 20, R$ 14,90 e até R$ 10). Nunca vi, ou não me lembro de ‘Night and Day’. Cary Grant faz o papel e ele até canta – ‘You’re the Top’ –, mas o ponto alto da música no filme parece ser Mary Martin cantando ‘My Heart Belongs to Daddy’, quase 15 anos antes da homenagem de Marilyn ao então presidente John Kennedy – seu amante? –, que George Cukor transportou para o belo musical ‘Adorável Pecadora’, com a blonde e Yves Montand. Encontrei referências de que ‘Night and Day’ trata, mesmo que superficialmente, de temas como o homossexualismo do compositor e seu casamento de aparência. Acho interessante, se a gente for pensar em termos históricos, que, naquele mesmo ano, Charles Vidor fez o clássico noir ‘Gilda’, também tratando de um vínculo homossexual entre Glenn Ford e Charles McReady, o ex e o atual amante da personagem de Rita Hayworth, mas outros diretores, pela mesma época, não estavam conseguindo abordar o tema, porque era um dos assuntos controlados (ou proibidos…) pelo Código Hays, que dominava a indústria. Em termos de Cole Porter no cinema, nada supera, para mim, o ‘Can-Can’ de Walter Lang, com aquele elenco maravilhoso (Shirley MacLaine, Frank Sinatra, Louis Jourdan, Maurice Chevalier e Juliet Prowse), mais a trilha que é bálsamo para ouvidos inteligentes (‘C’Est Magnifique’, ‘I Love Paris’, ‘Let’s Do It’, ‘Just One of Those Things’ etc). Já disse que gosto pontualmente de alguns musicais, não do gênero – irrestritamente –, mas ‘Can-Can’ é um dos filmes mais prazerosos que existem e eu sempre achei que Billy Wilder o viu – e reviu – antes de fazer ‘Irma la Douce’, também em Paris, também sobre uma cocotte, também com Shirley, três anos mais tarde. Sobre homossexualismo em Hollywood, existe uma história clássica. Humphrey Bogart era homófobo de carteirinha, mas aceitou integrar Truman Capote à sua turma quando John Huston contratou o escritor para fazer o roteiro de ‘O Diabo Riu por Último’ (Beat the Devil). O filme, disponível em DVD, mas não sei se é raro – saiu há bastante tempo –, é ótimo. Dá a impressão de que foi feito para que o diretor e o astro – na verdade, o elenco todo, que inclui Jennifer Jones, Robert Morley, Gina Lollobrigida e Peter Lorre – se divertissem. A história praticamente repete a de ‘Relíquia Macabra’, com a diferença de que está em disputa uma mina de urânio num pequeno país da África inglesa e não a estátua do falcão maltês. Conta a lenda que Huston e Bogart se preocupavam mais com suas noitadas de pôquer – o filme foi feito em Nápoles – do que com o plano de filmagem. Mas a tal história a que me referi é a seguinte. Capote ainda não era tão conhecido (em 1954) e Bogart teria implicado com seus trejeitos. Capote não apenas derrotou o machão Bogart na queda de braço como teria lhe contado sua passagem pela cama de Errol Flynn. Como os dois – Flynn e ele – tinham sido rivais na Warner, Bogart parece ter saboreado as indiscrições de Capote sobre o lendário Robin Hood. Essa história foi contada por Ruy Castro num texto no ‘Caderno 2’. Dei uma pausa e fui agora aos implacáveis arquivos do ‘Estado’. Lá está, na edição de 26 de agosto de 1992. ‘Bogart adorou (nota minha: a indiscrição de Capote) porque, no fundo, nunca acreditara que Errol Flynn fosse o espadachim da própria vida.’ Não tomei isso conmop tentativa de desacreditar Errol Flynn. Ele morreu aos 50 anos, acabado como se tivesse 80. E não era gay. Podia ser bi, talvez, mas se alguém,. em Hollywood, viveu a vida na farra foi Flynn. Como ‘herói’, está no meu panteão. “O Intrépido General Custer’, de Raoil Walsh, é um dos filmes favoritos, e tabnto faz que seja uma idealização da figura do militar, sem respaldo na realidade, como se comprovou depois. A cena da despedida, quando Custer/Flynn sabe que está indo para a morte – na ficção de Walsh, ele se sacrifica pelos ínmdios –, é magnífica. A câmera faz um travelling avante e pega o rosto de Olivia de Havilland, quando ele diz que viver ao lado dela foi a melhor coisa de sua vida. Ele sai de quadro, a câmera recua, num travelling de afastamento e Olivia cai desmaiada, de tanta emoção. Santo Deus! Em matéria de representação do heroísmo, não existe nada mais belo, nem Sophia Loren amarrando seu Rodrigo (Charlton Heston) morto ao cavalo, na ofensiva final de ‘El Cid’, de Anthony Mann.