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Luiz Carlos Merten

05 Setembro 2011 | 10h16

Em princípio, deveria ter ido ao Rio no fim de semana, para encontrar meus amigos Dib Carneiro e Gabriel Villela. Dib foi assistente de Gabriel no ciclo de leituras da Bienal do Livro. Gostaria muito de ter visto Elba Ramalho ler os poemas de João Cabral de Mello Neto e teria sido uma oportunidade rara para conhecer a própria Elba. Mas terminei ficando, e não me arrependo. Praticamente, me mudei para o CCBB, no sábado e domingo, para assistir aos filmes da retrospectiva de Vincente Minnelli. Na sexta, fiz uma pequena confusão e, querendo assistir a ‘O Ponteiro da Saudade’ (The Clock), que nunca vi, terminei vendo ‘O Pirata’. No sábado, fiz um duplo, ‘Assim Estava Escrito’ (The Bad and thje Beautiful), seguido de ‘A Cidade dos Desiludidos’. No domingo, ontem, passei pela redação do ‘Estado’, para fazer os filmes na TV, e corri para o CCBB para assistir, às 12h30, a ’Agora Seremos Felizes’ Meet Me in St. Louis. À noite, (re)vi ‘A Roda da Fortuna’, The Band Wagon, com a cena em que Fred Astaire começam a andar no Central Park e, de repente, com uma sutileza e elegância raras, sem transição alguma, ambos começam a dançar. Que que é aquilo? Meu amigo Jefferson Barros tinha razão. Minnelli era f… E aqueles babacas de ‘Cahiers du Cinéma’, em 1978, decidiram que ele era um ‘falso autor’. “The Bad and the Beautiful’, O Mau e a Bela – e ela era Lana Turner, a big star da Metro, em 1952 –, é um filme sempre na pauta, considerado um dos melhores, muita gente acha que é o melhor, sobre os bastidores de Hollywood. “A Cidade dos Desiludidos’ é mais raro, mas foi muito bacana essa possibilidade de assistir aos dois em sequência. ‘A Cidade’ não é uma continuação de ‘Assim Estava Escrito’. Creio que sugeri, senão escrevi isso, no texto publicado no ‘Caderno 2’, na abertura da mostra. O que me induziu ao erro, fora a pressa, foi a cena em que Kirk Douglas, o ator, e Edward G. Robinson, o diretor, lembram como já foram bons assistindo justamente a um trecho de ‘The Bad and the Beautiful’. Na sua autobiografia – ‘Tous en Scêne’, tenho a edição francesa –, Minnelli conta que queria usar uma cena de ‘O Invencível’ (The Champion), de Mark Robson, de 1949, primeiro grande sucesso do próprio Kirk Douglas – que faz o astro dentro de seu filme –, mas a United Artists não quis liberar as imagens, cobrando da Metro uma exorbitância, e isso levou o estúdio a sugerir que o diretor usasse o próprio filme. Fiquei muito impressionado com ‘A Cidade’, confesso. Achei muito interessante ver como um cineasta americano dá sua versão da dolce vita – e ontem, assistindo a ‘A Roda da Fortuna’, foi como fazer o caminho inverso. No balé ‘Girlhunt’, que homenageia Mickey Spillane, havia um desfile de modas com personagens extravagantes que pareciam saídos de um filme de Federico Fellini. Minnelli inventou Fellini? “A Roda’, afinal, é de 1953, quase uma década antes de ‘Oito e Meio’, quando Fellini começa a povoar seu cinema com todas aquelas figuras estranhas. Fui à autobiografia. Minnelli não tem muito apreço pelo próprio filme. Acha que, realmente, foi melhor na época de ‘Assim Estava Escrito’ e se pergunta se Peter Bogdanovich, por acaso, teria visto o mesmo filme que ele? Bogdanovich, na sua fase de crítico, escreveu um texto sobre ‘A Cidade’ em ‘Film Comment’. Comentando as cenas de orgia de Minnelli, disse que elas davam de dez nas de Fellini em ‘A Doce Vida’, acrescentando que Fellini, como todo moralista, é um chato e um pudico. Minnelli não concorda e reclama da versão do estúdio. Ele acha que os personagens são muito robotizados nas orgias e acrescenta que, na versão dele, era efeito das drogas, que o estúdio houve por bem eliminar. Não creio que ‘A Cidade’ seja um grande filme, ou tão grande quanto ‘Assim Estava Escrito’, mas gostei de revê-lo. A associação com Fellini, e ‘A Doce Vida’, é até óbvia, já que os dois filmes são contemporâneos e retratam o mesmo meio social, mas me impressionou muito mais que Minnelli, também contemporâneo de ‘O Ano Passado em Marienbad’, tenha vestido Cyd Charisse com as mesmas plumas de o Delphine Seyrig em ‘O Ano Passado em Marienbad’. Ia até fazer uma pesquisa. Os vestidos de Cyd são criações de Balmain. Os de Delphine, serão também? As plumas de Cyd realçam a natureza predadora da personagem. Carlota, a ex de Kirk Douglas no filme, é uma ave de rapina. Minnelli, de novo – na autobiografia –, queixa-se da intervenção do estúdio. Na versão final, Carlota é má, dissoluta e invasiva – do ex-marido –, e pronto. Na versão dele havia uma cena em, que ela conta que, na famosa casa da colina – a propósito, ‘Herança da Carne’ chama-se ‘Home from the Hill’ no original –, tinha um andar inteiro só de armários parta acomodar seus vestidos e sapatos. Ela guardava até o primeiro vestido que comprou, de US $ 20, bem diferente do de Balmain, de US $ 2 mil (em 1962!). E Carlota dizia que nunca conseguiu se desvencilhar das coisas que foram suas (o ex?). Independentemente de um ser melhor que o outro, ‘Assim Estava Escrito’ e ‘A Cidade dos Desiludidos’ formam um díptico de notável coerência. Agora, bons mesmo foram os musicais de Minnelli. Meu amigo e editor, Ubiratan Brasil, doido por musicais, me havia perguntado qual, entre os de Minnelli, era o meu preferido. Ele ganhou duas vezes o Oscar por obras do gênero – ‘Sinfonia de Paris’, em 1951, e ‘Gigi’, em 1958. O melhor musical de Minnelli, apesar disso, é ‘Agora Seremos Felizes’. Saí do cinema numa exaltação, convencido de que havia assistido a uma raridade, um filme perfeito. Tinha a mesma sensação, à noite, na famosa cena de Fred Astaire e Cyd Charisse dançando no Central Park, em ‘A Roda da Fortuna’. A estética do sonho de Minnelli se consolida, na mise-en-scène, por meio de uma sofisticada construção do cenário – dos cenários. Por isso mesmo, a destruição dos cenários – do mundo – é tão devastadora em ‘Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse’. Por falar neles, a importância da cor, e do vermelho e do verde, é perene na obra de Minnelli. Vermelho e verde, é possível pensar todo o autor, a partir daí. Tudo o que quero, nesta semana, é ver mais Minnelli.