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Luiz Carlos Merten

25 Abril 2009 | 15h42

Acordei-me hoje e fui procurar não me lembro o quê nas intermináveis pilhas (montes) de livros e DVDs que atravancam meu quarto. Descobri o livro sobre Shoei Imamura que havia comprado em Paris, no começo do ano. O livro pertence à mesma coleção do outro volume sobre John Sturges, ao qual já me referi várias vezes. Havia me esquecido do Imamura. Na contracapa, esta lá que se trata do primeiro livro sobre ele editado fora do Japão, onde o diretor surgiu como expoente da nouvelle vague japonesa, mas foi sempre um tanto marginal. O que garantiu a projeção internacional de Imamura foram as duas Palmas de Ouro que ele ganhou em Cannes, com o remake de ‘A Balada de Narayama’ e ‘A Enguia’. Viajei naquelas páginas, mais até nas fotos do que nos textos, incluindo as entrevistas, que li na vertical, sem a atenção que uns e outras merecem. Carlão Reichenbach ou Ismail Xavier talvez se lembrem melhor do que eu. Integramos, com Walter Hugo Khouri, Ana Carolina e Rubens Ewald Filho, mais algumas pessoas, um grupo que a Fundação Japão levou a Tóquio, em 1995, no ano do centenário do cinema. Visitamos o ateliê de Imamura, sua escola de cinema, mas até onde me lembro ele não estava. Imamura foi para mim uma descoberta lenta. Lembro-me que seu ‘Chuva Negra’, sobre a bomba atômica, é contemporâneo do thriller homônimo de Ridley Scott e eu me impactei muito mais com as estéticas em implosão do filme norte-americano com Michael Douglas e Andy Garcia, cujo assassinato é um momento que me assombra, pelo brilho icomparável das imagens. Mas eu aprendi a amar e a respeitar Imamura e acho que isso começou com seu último longa, sobre o Dr. Akagi, o Dr. Fígado, que ele próprio considerava um filme especial porque foi com ele que o diretor decifrou o mistério de seu pai, um médico humanista cuja influência, em sua vida e obra, foi muito maior do que ele seria tentado a admitir. Imamura fez filmes transgressores, falando de sexo como raros diretores japoneses. Incesto, bordéis, variados símbolos sexuais (a enguia), seu cinema é pródigo nesses temas e ele também não se prendia a gêneros nem ao estilo, subvertendo alegremente a tradição, mas também não transformando a inovação num cânone, porque na verdade, de filme para filme, ele queria sempre ousar, testar, experimentar, sendo clássico ou revolucionário, conforme a cena e o drama (o pathos) exigissem. Imamura era louco. Lembro-me do escândalo provocado no Japão – e em todo o mundo – quando ele exigiu que a atriz que faria a velha em ‘A Balada de Narayama’ arrancasse os dentes, para ficar desdentada de verdade. Imamura teve uma importante fase documentária, da qual desistiu ao se dar conta de que a simples presença da câmera desestabilizava a vida das pessoas. Um ator profissional ele achava que sabia administrar a presença da câmera em sua vida. Para as pessoas comuns, a câmera, como um corpo estranho, terminava por interferir e mudar. Imamura começou a se preocupar com isso, a se interrogar sobre a ética. Parou de brincar de Deus – como dizia – e concentrou-se na ficção. Seu último filme foi o episódio para aquele filme coletivo sobre o 11 de Setembro. Ele contou a história do soldado japonês que permanece em guerra, muito tempo após a rendição japonesa. O soldado pensa que é cobra. Diz que não existe guerra santa, só guerra e, por princípio, a guerra não celebra – pelo contrário… – o humanismo. EStou redigindo este texto no subsolo do Shopping Frei Caneca. Daquin a pouco vou ver aquele ‘Evocando Espíritos’. Imamura ficou comigo e eu ainda não contei que, depois do café e do banho, anters de sair de casa, dei umna zapeada na TV e estava passando ‘Guerra dos Mundos’, a versão de Steven Spielberg. Vocês sabem que eu adoro o filme, episódio intermediário, entre ‘O Terminal’ e ‘Munique’, da trilogia informal de Spielberg sobre os EUA pós-11 de Setembro. Quando sintonizei na emissora estava passando a cena em que Tom Cruise mata Tim Robbimns. Na sequência, a filha e ele são atacados pelo alienígena e, no minuto seguinte, a menina é abduzida. Saí de Shoei Imamura, que representou o sentimento anti-americano de forma visceral no cinema japonês, e caí em Hollywood, mas o Spielberg de ‘Guerra dos Mundos’ é anti-imperialista e contrário à exploração da paranóia pela administração George W. Bush, que quase levou os EUA a perderem sua alma, como diz Barack Obama. Não sei se existe muita gente capaz (ou interessada…) em fazer essa viagem, mas de Imamura a Spielberg minha manhã foi complexa e perturbadora. A cena de Tom Cruise entrergando a filha à ex-mulher, ela agradece movendo os lábios comko quem diz baixinho, em forma de oração, ‘thank you’. Ele fica no medio da rua em ruínas, excluído da casa, do lar, como John Wayne no desfecho de ‘Rastros de Ódio’, de John Ford. Me lembrei do Dr. Fígado de Imamura, no centro daquela comunidade em que todos dependem dele e ele, como responsável, não se liga a ninguém. O cinema é uma coisa maravilhosa.