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Minha admiração eterna por Federico Luppi, e ele foi o ator do Dib

Luiz Carlos Merten

22 Outubro 2017 | 01h36

Estou em débito comigo mesmo. Morreram, na semana passada, Danielle Darrieux e Federico Luppi. Vou começar pelo segundo, e provavelmente fazendo inimigos. Em agosto, o Festival de Gramado outorgou o Kikito de Cristal a Soledad Villamil. O prêmio foi criado para homenagear uma grande personalidade do cinema latino-americano. É prêmio para Ricardo Darín, não para Soledad, sorry. Cheguei a reclamar, acho que para Rubinho, Rubens Ewald. Mas por que não deram para Federico Luppi, enquanto está vivo? Estava. Pelo que entendi, Rubinho não participa da escolha, mas ele defendeu a Villamil, que além de cantora, tem uma expressiva carreira como atriz. Sei não. Eu acho que é um prêmio para figuras míticas como Federico Luppi, Hector Alterio, Norma Aleandro ou Graciela Borges, para permanecermos no cinema argentino, e isso se quisermos prestigiar atores. Na época de José Carlos Avellar e Sérgio Sanz, o prêmio destacava pensadores. Podia ter menos glamour, mas fazia mais sentido. Federico Luppi interpretou, no teatro, a peça de meu amigo Dib Carneiro, Adivinhe Quem Vem para Rezar, que na versão portenha se chamou Por Tu Padre. Dib não pode se queixar. No Brasil, sua peça foi representada por Paulo Autran e Cláudio Fontana. Na Argentina, por Luppi. Grandes, imensos atores. Até onde sei, Federico Luppi nasceu numa modesta família de origem italiana. Morreu na sexta, 20, num hospital de Buenos Aires, em consequência de um coágulo no cérebro que se formou depois de uma queda, em abril. Tinha 81 anos. Estreou no cinema num pequeno papel de Pajarito Gómez, de Rodolfo Kuhn, em 1965. Dois anos depois, recebeu seu primeiro prêmio por El Romance del Aniceto y la Francisca, de Leonardo Favio. No mesmo ano, 1967, fez o episódio de Kuhn para O ABC do Amor, coprodução com o Brasil e o Chile. Em 1974, estávamos, Doris e eu, na Argentina, quando estreou La Patagonia Rebelde, de Hector Olivera. É, no meu imaginário, um dos mais belos filmes da história do cinema latino-americano. O próprio Perón liberou La Patagonia Rebelde para exibição. Após sua morte, o governo de Isabelita, flertando, por influência do brujo Lopez Rega, com os militares, não apenas revogou a liberação como o governador peronista da província de Santa Cruz, que autorizou a filmagem, foi preso e permaneceu ‘en la cárcel’ por longos seis anos. Luppi, Olivera e Hector Alterio tiveram de se exilar. O filme recria o fuzilamento de operários pelo Exército argentino no sul do país, no começo dos anos 1920, porque protestavam contra o governo do presidente radical Hipólito Yirogyen. Alterio faz o militar que comanda a reação. No final, recebe a homenagem dos donos das fábricas e mineradoras. Eles cantam, em inglês, ‘..’cause he is a joly good fellow’ e cai, para Alterio, a ficha de que o tempo todo estava servindo a interesses estrangeiros. O público aplaudia dentro dos cinemas e lá fora rolavam os protestos – “Se Evita viviera seria Montonera.’ Meninos, eu vi. Vivi. Federico Luppi fez três ou quatro filmes com Adolfo Aristarain, outros tantos com Guillermo del Toro. Filmou com Marcelo Piñeyro, Juan José Jusid e Andrés Wood. Teria de pesquisar, mas seus últimos filmes estreados foram de Rodrigo Grande (No Fim do Túnel) e Martin Hodara (Neve Negra). Foi um grande ator de teatro, cinema e TV. Filmou, e brilhou, em dois continentes. Gramado perdeu a chance. Nunca mais o Kikito de Cristal para Federico Luppi.