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Minha viagem pessoal através de ‘Perdidos em Paris’

Luiz Carlos Merten

16 Julho 2017 | 12h14

Em 1956, John Ford tinha 61 anos – nasceu no Maine, em 1895 – quando fez o maior dos westerns. Rastros de Ódio sequer foi indicado para o Oscar. Naquele ano, a Academia premiou A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Michael Anderson – ou será melhor dizer de Michael Todd, o sr. Elizabeth Taylor da vez, o produtor? -, e George Stevens como melhor diretor por Giant/Assim, Caminha a Humanidade. Por que estou lembrando isso? Por causa de Perdidos em Paris, a comédia dirigida e interpretada por Fiona Gordon e Dominique Abel. Fiona desembarca em Paris atrás da velha tia. É ajudada pelo clochard Abel. A tia é a lendária Emmanuelle Riva, em seu último papel. Nunca houve quem encarnasse melhor a beleza e sensualidade das mulheres – em Hiroshima Meu Amor, o clássico de Alain Resnais. Emmanmuelle faz uma velhinha que antigamente seria definida como lunática. Hoje, é Alzheimer. Titia parece um passarinho. Lembrou-me o Hank Worden de The Searchers. Mose Harper, lembram-se dele? Mose segue como um bicho Ethan Edwards e Martin Pawley. Ford não era chamado de Homero de Hollywood à toa. O tema que percorre sua obra é a odisseia. De grupos, de indivíduos. Colonos, homens brancos, índios, negros. Todos procurando um lar nessa América que ainda não era excludente. Como se constrói uma civilização? Integrando, dizia Ford. Ethan será a exceção. A porta da casa vai se fechar sobre ele, deixando-o de lado de fora em Rastros de Ódio. Dentro, até Moses tem seu quinhão, e é a cadeira de balanço. Moses se embalando no desfecho de Rastros de Ódio é uma das imagens mais pungentes do cinema. Duvido que os diretores, que me disseram que Emmanuelle Riva acrescentou muito à personagem de Perdidos em Paris (durante entrevista no Festival Varilux), tenham pensado nele, ou mesmo a atriz. Prefiro crer que seja uma construção minha, do meu imaginário. Hank Worden! Se você procurar verá que foi um caubói que virou ator – de westerns, principalmente – e apareceu numa centena de filmes. Trabalhou muito com John Wayne, John Ford. Morreu em 1992, aos 91 anos. Seu último papel no cinema foi em 1990 – Almost an Angel, como paciente num hospital. Na TV, apareceu em muitos episódios da série emblemática The Lone Ranger (1949/57) e, na despedida, foi atendente em Twin Peaks, a série original de David Lynch, em 1990-91.