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Cultura » Minha viagem pelo cinema japones

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Luiz Carlos Merten

17 Abril 2007 | 06h41

TOQUIO – Choveu ontem durante todo o dia e, aa noite, a temperatura caiu. Pela manhah, quando abri a janela do quarto do hotel, no 49.o andar de um dos predios mais altos da capital japonesa, Toquio estava de tal maneira envolta numa bruma que pensei ateh que havia nevado. E viajei. Me vieram as imagens de um filme que vi ainda adolescente, chamado A Felicidade Estah em Nos. Era dirigido por Zenzo Matsuyama, roteirista de grandes filmes de Masaki Kobayashi, e interpretado pela mulher dele, Hideko Takamine, que era uma grande estrela por volta de 1960. A Felicidade eh uma tragedia soh. Conta a historia de um casal de surdo-mudos, que sofre todo tipo de incompreensaoh e preconceito. Me lembrei do filme por causa da neve que achei que havia caido de madrugada. Na historia, contra tudo e todos, o casal tem um bebeh e resolve criah-lo. A casa eh assaltada, o ladraoh deixa a porta aberta, o bebeh sai engatinhando e cai na neve. Morre congelado, porque os pais naoh ouvem seu choro. Dito assim, parece um horror, mas na minha lembranca eh uma coisa triste, mas taoh delicada e bonita, que eh como se estivesse revendo o filme. De A Felicidade Estah em Nos viajei para O Corvo Amarelo, de Heinosuke Gosho, sobre os problemas familiares de um menino solitario e suicida. O Corvo Amarelo eh sempre uma referencia, para mim, pelo menos, porque acho seu tratamento da cor espetacular. Gosho a utiliza para expressar a psicologia dos personaqens, de uma forma que, naoh tenho duvidas,com certeza influenciou o Valerio Zurlini de Dois Destinos. Falo desses filmes com algumas pessoas e ninguem os conhece. Alguns colegas e amigos conhecem Kurosawa, um pouco de Ozu, mais um pouco de Mizoguchi e de Eizo Sugawa. Eu naoh me canso de falar de Kobayashi, o maior de todos – Rebeliaoh me parece a obra-prima de todo o cinema japones -, mas quase ninguem o conhece nem a Mikio Naruse e Gosho, para naoh falar de Tomu Uchida e Iroshi Inagaki. Tanta coisa para ver, para conhecer. No passado e no presente, nosso conhecimento do cinema ainda eh muito limitado.

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