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Luiz Carlos Merten

09 Julho 2011 | 09h34

Passei ontem o dia numa espécie de ressaca emocional, depois de assistir a ‘Harry Potter e as Relíquias da Morte, 2ª Parte’. Tinha de escrever a crítica para a edição de amanhã do  ‘Caderno 2’, que antecipa uma entrevista com Daniel Radcliff.. Já vi/vivi sessões muito especiais, as de ‘O Senhor dos Anéis’, por exemplo. À medida que a série avançava, e foram apenas três filmes, o público das pré-estreias ia cada vez mais paramentado. Nunca vi tantos elfos nem Gandalfs na minha vida como naquelas sessões. Rubens Ewald Filho há de me perdoar, mas me lembro sempre da mãe dele, que amava a série de Peter Jackson e não teve tempo de ver o final. Ontem, após a sessão, fui almoçar sozinho no Viena do Eldorado. Tenho almoçado lá, nos últimos dias, com minha filha Lúcia ou meu amigo Dib Carneiro. Ontem, a própria funcionária observou – onde estão seus acompanhantes? Sentei-me, pensando no filme e, ainda enfraquecido, dizia comigo. ‘Mais uma’ – série que consegui acompanhar até o fim. E pensava também em Mário Peixoto. Menos uma. Quantas séries me faltarão? Não importa. Faz parte da vida e o bom é aproveitar/valorizar o que se tem. Imagino que muita gente talvez achasse tudo aquilo excessivo, ou ridículo, mas nunca vi tanta gente chorando na minha vida. Eu me juntei ao coro, claro, e por isso fiquei naquela ressaca a tarde toda, até que a matéria, enfim, me saiu, juntando análise com informações bem subjetivas e tentando estabelecer o que, para mim, Frodo e Harry Potter têm em comum (e eles têm). Vou fazer uma confissão – nunca quis ler a série de livros de J.K.Rowling. Foi uma decisão, não sei se acertada ou não, mas consciente. E nunca li nada sobre o que acontecia no sétimo livro, ‘As Relíquias da Mortte’, que David Yates dividiu em dois filmes. A descoberta do verdadeiro herói da história me caiu como um raio. A frase de Severus, Alan Rickman, ‘Você tem os olhos de sua mãe’, e a expressão de Harry, quando a ouve, me levaram numa visgem. Mas então era isso, é isso? A meada que desenrola todo o novelo e dá sentido às coisas? ‘Você tem os olhos de sua mãe!’ Steve Kloves fez uma belíssima adaptação, mantendoo fio intimista, em meio a tantas peripécias. Em mais de um momento, fechei os olhos, levado pela musicalidade do texto, dito por Alan Rickman, por Maggie Smith ou por Michael Gambon. O que são aqueles atores? E o filme é sobre o crescimento de uma geração, sobre os casais que se formam, sobre a fluxo da vida. Não creio que, como cinema, o oitavo filme seja o melhor. Gostei muito, muito, mas o sétimo, a primeira parte de ‘As Relíquias da Morte’, é ainda melhor. David Yates! Perguntei diversas vezes para vocês quem é e que parentesco tem com Peter Yates. Entrevistei Imelda Staunton em Cannes, por ‘Aconteceu em Woodstock’, Taking Woodstock, de Ang Lee. Falamos sobre Ang Lee, claro, e Mike Leigh, embora eu não goste muito de ‘O Segredo de Vera Drake’, que me parece um dos piores, se não o pior filme do diretor. É curioso, mas Imelda reservou somente para David  Yates a definição de gênio. Ele é – uma espécie de. Quem diria. O fecho de Harry Potter restabeleceu o cinema de lágrimas.