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Luiz Carlos Merten

30 Outubro 2010 | 09h45

Cá estou, me preparando para ir à segunda coletiva da Mostra, aquela em que Leon Cakoff anuncia os filmes selecionados pelo público para comcorrer ao troféu Bandeira Paulista. Já passei pela padaria (Trigonella), tomei meu café e aproveito para postar um pouco. Roberto acha que minhas ‘relações’ com o diretor e o elenco influenciaram minha resenha sobre o filme. Não sei exatamente que relações são essas, porque conheci Tammy, Mariana e Jaime, pessoalmente, na hora da entrevista – embora Mariana, como mulher e atriz de Enrique Diaz, seja uma admiração antiga no palco. Arnaldo Jabor, entrevistei algumas vezes e nem rezo pela cartilha dele, quando cai matando no governo Lula, mas confesso que isso não influenciou na hora da avaliação, embora compreenda que outras pessoas possam levar sua antipatia a uma olhar negativo, por que não? Encontrei uma amiga que me disse que o filme não tem emoção nenhuma. Pera lá, não tem para ela. Nenhum filme é uma fórmula, um coquetel programado de emoções. Às vezes, até tentam ser, mas nem sempre a química ou a alquimia funcionam. Embora o filme, na tela, seja o mesmo, nossas reações podem ser diferenciadas, até diferentes. Eu, por exemplo, me emociono profundamente com três momentos de ‘A Suprema Felicidade’ – o desabafo de Paulinho para o amigo, dizendo que não ser medíocre como seus pais; a fala da mãe, como se se dirigisse ao marido e se interrogando sobre tanto amor que sentiam um pelo outro; e o avô, Nanini, pedindo a Paulinho que o deixe ir e fazendo aquele movimento, aquela reverência que, para mim é uma imagem deslumbrante, que pretendo levar pelo que me resta de vida. Não li as ‘resenhas’ sobre o filme do Jabor. Como Luiz Zanin Oricchio não gostou muito,  queria fazer um ‘Gostei/Não gostei’, o que é sempere interessante, mas ele não achou que fosse o caso. Nossa coordenadora de área, Laura Greenhalgh, me disse que Zanin achou o filme ‘narcisista’ e essa é uma definição que se pode aplicar a 99%, senão a 101% dos artistas que conheço. Mas só me pareceu curioso porque, nos idos de 1960, o filósofo Gerd Bornheim, entrevistado por uma revista de cinema no Rio Grande do Sul, desqualificou Fellini pelo mesmíssimo argumento – o filme da vez era ‘Oito e Meio’ – e, depois disso, o autor italiano ganhou mais três Oscars (por ‘Otto e Mezzo’, ‘Amarcord’ e um especial de carreira) e, quando morreu, aureolado como gênio, seu nome virara adjetivo, ‘felliniano’, para designar coisas delirantes, extraordinárias, sensacionais. Zanin, que gosta muito mais de Fellini do que eu, tenho certeza de que recorreria ao seu vasto arsenal de psicanálise para provar, por A + B, que o narcisismo de Fellini nunca comprometeu sua universalidade. Ana Paula, na concorrência, também parece ter achado o filme ‘defasado’, o que me leva a crer que Jabor, mesmo quando não concordo com ele na avaliação de Lula – mas ele teve a honestidade de gostar do filme de Fábio Barreto sem invocar ‘problemas’ -, é superior a seus críticos. Voltando-se para o passado, para os anos de sua infância e juventude, ele fala de uma crise de ideais  valores que é de aqui e agora, coisa dessa globalização que revela sua fase mais assustadora no filme do russo Sergei Loznitsa, o ‘Minha Felicidade’ – e é curioso como, no fundo, o que está em discussão é a tal ‘Felicidade’ e o que representa, o que é, na verdade. Já vi ‘A Suprema Felicidade’ três vezes (três!) e chorei em todas exatamente na mesma cena, mas quando vi o filme nas duas primeiras vezes, no laboratório em Alphaville e na abertura do Festival do Rio, ainda não havia assistido a ‘Tropa de Elite 2’. Na terceira, sim, e achei muito interessante  o que virou um contraponto para mim, a violência do filme de (José) Padilha e o choro do Paulinho quando derruba o cara que infernizava sua vida. Não vou fazer um roteir do que me emociona em ‘A Suprema Felicidade’, nem do que me pareceria a forma correta de ver o filme. Cada um que o veja, e interprete, como pode. Só espero que, na estrutura fragmentada que Jabor adotou, até os que não gostam tenham culhão – sorry – de negar que o filme tem momentos (fragmentos de vida e arte?) magníficos. Me lembrei agora de Pauline Kael desancando ‘Morangos Silvestres’, meu Ingmar Bergman favorito, mas admitindo que duas ou três cenas eram tão grandes que ela conseguia entender a comoção causada pelo filme.