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Luiz Carlos Merten

14 Novembro 2010 | 16h54

BUENOS AIRES – Estou no mailing de Maria Rosário Caetano, o que significa que recebo regularmente seu “Almanakito”, como recebo a coluna de Tom Capri, com suas diatribes contra “Veja”, Daniel Piza etc. Nao costumo ler o “Almanakito”, nao porque nao o considere relevante, mas para resistir ao desejo de contestar. Ontem, li e foi uma m.., O que me chamou a atencao foi a chamada – Zé Geraldo Couto nao gostou de “A Suprema Felicidade”. Nao tenho nada contra ele, embora também seja verdade que nao tenho nada a favor. Zé Geraldo faz o que parece uma análise isenta do filme. Ele divide o mundo entre os que odeiam Arnaldo Jabor, o articulista, e queriam que seu filme fosse um fiasco, e os que nao gostam dele mas esperavam ve-lo voltar aos bons tempos como diretor de cinema. Embora Zé Geraldo diga que pertence ao segundo grupo, tenho minhas dúvidas, porque logo ele desqualifica “A Suprema Felicidade” como bom cinema. Confesso que, a essa altura do jogo, Jabor já virou um elemento secundário, embora nao o seja, claro. O problema é que eu gosto do filme e o acho muito bom, muito bem feito.  Logicamente, ganho atestado de burro por uma declaracao dessas, mas como é feita por quem nao me merece muito crédito, nao há de ser uma coisa capaz de me tirar o sono. Já disse que gostar do filme nao significa me alinhar com  o pensamento, digamos, “reacionário” de Jabor. Mas ocorreu algo curioso. Na entrevista que me deu, antes da estreia do filme, ele falou da busca da felicidade como algo muito importante e necessário no momento atual, de crise das utopias etc e tal. Quando Ana Paula Souza, num texto que nao li, chamou o filme de “defasado”, fiquei pensando comigo o que seria um filme “atual”? Sergei Loznitsa, no filme mais radical da Mostra – ” Minha Felicidade” -, também estava obcecado pelo assunto, “felicidade”. E Apichatpong Weerasethakul, na sua master class aqui em Buenos Aires, disse que nao há tema mais atual. A questao é – o que é a felicidade? Certamente nao é uma calca azul e desbotada. Ops, aquilo era a liberdade (hoje transformada em liberdade de consumir o que nos é previamente imposto como objeto de desejo). O que é a felicidade? O que é o cinema? Hoje, neste momento, prestes a embarcar de volta para o Brasil, estou convencido de que pode muito bem ser embarcar nas viagens de Agnes Varda e Arnaldo Jabor.