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Cultura » Minha balada para um louco

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Luiz Carlos Merten

09 Junho 2007 | 09h53

Entrevistei Hector Babenco ontem de manhã para um projeto do Festival do Rio. Adoro conversar com ele. Babenco gosta de cinema e se pode falar com ele, de forma enriquecedora, sobre filmes de outros diretores. Por exemplo, compartilhamos o mesmo carinho por Casa Vazia, do Kim Ki-duk, e por Lisbela e o Prisioneiro, do Guel Arraes, que eu descobri que não sou o único a amar. Vou contar para vocês – Débora Falabella faz parte, inscrita a ferro e fogo, no meu imaginário. Agora/Que faço eu da vida sem você… De volta ao Babenco, nosso assunto era outro, mas conversamos bastante sobre O Passado, o novo filme dele, que estréia só em outubro. Duas ou três pessoas que conheço, e que já viram, gostaram muito. O próprio Babenco diz que está apaixonado por seu filme. Como ele sabe que não gosto nem um pouco de Coração Iluminado, me disse que O Passado é da mesma família, mas muito melhor. Vi todos os estudos de cartazes até chegar ao que ele mais gostou. Gael García Bernal e uma atriz argentina nova, cujo nome não guardei. Os dois na cama. Ele, de terno e gravata. Ela, nua, ou pelo menos de seios de fora. Olham-se sem paixão. Em cima, a frase A separação às vezes faz parte do amor (ou coisa que o valha). Babenco se baseou num romance premiado de Alan Pauls, que acaba de sair no Brasil. Alan é irmão de Gastón Pauls, o ator de Nove Rainhas. Dib Carneiro Neto, meu editor, está lendo o livro. Me disse que não consegue ver o Gael no papel. Repassei para ele uma informação do Babenco – ele queria fazer o filme com Rodrigo Santoro, em São Paulo. Rodrigo estava com problema de data. E havia a produtora argentina, a língua. Quando Gael topou, Babenco optou em definitivo por Buenos Aires e pelo espanhol. É um filme portenho, filmado numa área próxima à Plaza de Mayo, onde existe um casario velho, muito interessante. Já contei que, pela proximidade de Porto Alegre, ia muito a Montevidéu e a Buenos Aires. As cinematecas das duas cidades me nutriram dos clássicos que vi. Até hoje, quando estou em Buenos Aires, sei que os americanos entraram no mercado de lá, mas não sinto essa ocupação maciça das salas como ocorre aqui. No Brasil, é uma invasão. Eles resistem mais. Nesta semana, confesso, estou nostálgico de Buenos Aires e de Porto Alegre. Vi outro dia umas imagens de Porto, a euforia dos gremistas – minha filha é; eu sou colorado – e me deu saudade. O que me trouxe Buenos Aires de volta foi outra coisa, antes do papo com Babenco. Ouvi outro dia Balada para Un Loco, de Astor Piazzola, letra de Horacio Ferrer, na voz de Amelita Baltar. Piantao! Piantao! Meninos, eu juro! Eu vi Amelita Baltar cantando Piazzola em Buenos Aires. Vi também Mercedes Soza, lá! Mas Amelita foi demais. E eu amo Piazzola. Sua reunión cumbre com Gerry Mulligan é o máximo. É só colocar Adiós Nonino e eu desando a chorar. Dizem que Bach tocava para Deus. Eu não sou místico, mas quando ouço Adiós Nonino, a tristeza é tão grande, tão dilacerante, que eu entendo Dostoievski. Se Deus não existe, tudo é permitido.