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Luiz Carlos Merten

20 Agosto 2008 | 20h07

Havia encontrado Fatimarlei Lunardelli em Gramado. Nem sei mais há quanto tempo a conheço. Fati é jornalista, crítica de cinema e professora (também de cinema). Estamos todos de cabelos grisalhos, mas ela está muito bonita, ainda mais agora que adotou um corte (curto) que a deixou mais jovial. Fati lançou durante o Festival de Gramado seu livro sobre a crítica de cinema de Porto Alegre, nos anos 60, a geração de Jefferson Barros, Enéas de Souza, José Onofre, Marco Aurélio Barcellos, Hiron Goidanich, Hélio Nascimento, Tuio Becker, Luiz César Cozzatti e eu. Me desculpem se estou esquecendo o nome de alguém. Ainda não li o livro da Fati, mas ela é uma pesquisadora séria – e corajosa. Foi Fati quem levou Renato Aragão para a academia, com seu livro ‘Ô Psiu!’, que foi tese de mestrado ou doutorado. Todo mundo só quer analisar o Glauber e a Fati foi investigar o processo criativo do trapalhão, muito antes que ele fosse homenageado pela Academia Brasileira de Cinema e pelo Festival de Gramado por sua carreira de 47 filmes, incluindo os sete que integram a lista das dez maiores bilheterias do cinema nacional. Pois bem – reencontrei Fatimarlei Lunardelli na coletiva de Wim Wenders, segunda-feira à tarde, em Porto. Ela me disse uma coisa que está motivando este post. Pode parecer cabotinismo de minha parte – e talvez seja, um pouco -, mas Fati disse que os alunos dela (onde? Na Unisinos?) me adoram e até freqüentam o blog, muitas vezes postando seus comentários. Disse que ia mandar um abraço para eles, e é o que estou fazendo agora. Mas o objetivo do post é, claro, mais amplo. A geração a que pertenço amava os filmes – condição necessária para quem quer escrever sobre cinema -, mas vivia fora do eixo (Rio/São Paulo). Hoje em dia, está tudo interligado na internet, mas há 40 e tantos anos não era assim. Nem sei se cariocas e paulistas se dignavam a reconhecer que havia um pensamento cinematográfico no Rio Grande do Sul, ainda por cima muito ligado à revista ‘Cahiers du Cinéma’, que era a Bíblia do Jefferson e do Enéas (na fase de capa amarela, o que faz uma diferença enorme). Para eles, que viviam no centro do Brasil – mas também eram periféricos em relação a outros centros de pensamento -, talvez fosse um exotismo. E, depois, sempre era possível invocar o separatismo dos farroupilhas para explicar certos arroubos nossos. Tenho a impressão, retrospectivamente, de que vivíamos na contracorrente e podíamos até ser taxados como alienados. Nosso amor pelo cinema norte-americano – por autores como John Ford, Howard Hawks, Raoul Walsh, Joseph L. Mankiewicz, Anthony Mann, Otto Preminger, Nicholas Ray, Vincente Minnelli, Sam Fuller e, no meu caso, Gordon Douglas – devia ser suspeito em plena época de pensamento esquerdista do Cinema Novo. Já disse aqui, e não necessariamente como motivo de orgulho, que Glauber teve suas piores críticas no Brasil, em Porto Alegre, nos anos 60 e 70. Mas não éramos de direita, não. A gente até se expunha falando mal da ditadura. Mais tarde foi preciso rever posições, sobre Glauber, inclusive. Vai ser curioso debruçar-me na pesquisa da Fati sobre a crítica gaúcha e o (lendário) Clube de Cinema de Porto Alegre, onde reinava o patrono P.F. Gastal (que também via como suspeito tanto amor pelos ‘autores’, que para ele eram ‘artesãos’, de Hollywood). Não sei se o livro da Fati terá lançamento em São Paulo, mas ela própria – ou o pessoal da ‘Teorema’, a Ivonete Pinto e o Marcus Mello – poderiam entrar no blog para dar o mapa da mina aos interessados em adquirí-lo.