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Luiz Carlos Merten

27 Outubro 2010 | 15h11

Fui ver ontem ‘Mães’ na Mostra. Não perco nenhum filme de Milcho Manchevski, na expectativa de vê-lo retornar ao nível do excepcional ‘Antes da Chuva’, com o qual ganhou o Leão de Ouro em Veneza. Lembro-me de que, depois de assistir ao filme no Lido, não sosseguei enquanto não o entrevistei. Disse-lhe que ia ganhar. Ele me olhou como se fosse lunático, mas depois, na coletiva de premiação, me abanou e até me deu seu telefone em Nova York. Já contei como, coincid~encia ou não, eu consegui cravar os nomes dos vencedores dos três ou quatro festivais a que fui no Lido. Takeshi Kitano (‘Hana-bi’), Tran Anh-hung (‘O Ciclista’).  Decepcionei-me com ‘Poeira do Tempo’, também exibido na Mostra, embora o filme meio que explicasse o conceito do relato cíclico que estava na base de ‘Antes das Chuva’, numa época erm que Quentin Tarantino também o utilizava (em ‘Pulp Fiction’, Tempo de Violência). O mesmo procedimento volta em ‘Mães’, mas não creio que seja muito mais do que um artifício dramático. São três histórias – a de duas garotas que denunciam exibicionista, mesmo que tenham apenas ouvido falar dele; a de um trio de cineastas que fazem documentário nas montanhas da Macedônia; e o caso de um serial killer cuja história parece sob medida para provar como a realidade supera a ficção. O cara era jornalista e escrevia as reportagens sobre as vítimas que matava, todas mulheres (e mães) com um certo perfil – meia idade, faxineiras etc. O escabrosao é que o cara foi preso e morreu na cadeia, alegadamente por suicídio, mas um suyicídio um tanto improvável, porque ele se terisa afogado num balde d’água. Os três episódios de ‘Mães’ alguma forma falam de morte, embaralhgam os limites entre ficção e documentário e se articulam por meio da figura das mães e também das câmeras que os personagens usam para documentar as diferentes tramas. Manchevski está querendo falar da civilização da imagem, com certeza.  O filme é perturbador, mas não me convenceu muito. Convenceu menos ainda à plateia – muita gente saiu durante a projeção. Mas fiquei perplexo com o caso do jornalista serial killer, que não conhecia – nunca tinha ouvido falar -, embora tenha sido notícia em todo o mundo. Encanta-me, de qualquer maneira, a forma como Manchevski filma a Macedônia. Aquele céu estrelado, as montanhas cobertas de florestas e brumas, uma estrada que serpenteia no horizonte, como se fosse ium desdobramento para o infinito. Aquilo é tudo tão bonito. Morro de vontade de conhecer a Macedônia e, ao mesmo, me apavora essa ideia de um país em que a violência (na guerra de ‘Antes da Chuva’, nas relações interpessoais de ‘Mães’) seja tão latente.