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Luiz Carlos Merten

22 Dezembro 2007 | 18h28

Já estava saindo, mas voltei para mais um post. Ocorre que adoro estas viagens que o blog me permite e tenho a impressão de que vocês gostam, também. Celdani não sabia quem era o diretor de ‘O Homem dos Olhos Frios’ e eu, ao escrever sobre o western de Anthony Mann, fiquei com outro filme do diretor na cabeça. Existe um momento muito famoso no texto de Corneille, ‘Le Cid’, quando Rodrigo interpela o conde (“A moi, comte; deux mots”) e isso termina precipitando uma tragédia que vai repercutir na relação do cavaleiro com a bela Ximena. Anthony Mann fez deste diálogo um dos momentos mais belos de ‘El Cid. Ele filmou a cena, o encontro de Rodrigo com Ximena, num décor que até hoje não sei se era verdadeiro ou de estúdio – um castelo com uma escada circular, o que permitia (ou exigia?) um movimento também circular da câmera de Robert Krasker, um dos maiores diretores de fotografia do cinema. A cena não me sai da cabeça e eu ainda nem terminei aquela viagem quando, ao escrever sobre o roubo do Masp. no post anterior, citei ‘Como Roubar a Mona Lisa’, de Michel Deville. Ele surgiu no cinema francês no começo dos anos 60, não necessariamente ligado à nouvelle vague. Aliás, ele não era da noiva onda. Como os de Philippe De Broca, seus primeiros filmes foram comédias frívolas – ‘Agora ou Nunca, com Anna Karina; ‘A Mentirosa’ (Adorable Menteuse), com Marina Vlady (e as duas foram, vejam a curiosidade, mulheres de Jean-Luc Godard, o patrão da nouvelle vague). O próprio Deville era casado com a roteirista Nina Companeez e ela escreveu um filme deslubramte para ele – ‘Raphael, le Debauché’, que aqui se chamou ‘O LIbertino’, com… Quem era mesmo? Pierre Clémenti. O filme não era apenas lindo como experiência audiovisual (com música de Bellini). Inaugurou também, na obra do diretor, os temas da libertinagem e da perversão que renderam depois filmes maravilhosos, incluindo ‘A Vítima por Testemunha’, com Jean-Louis Trintignant e Isabelle Huppert; ‘Perigo no Coração’, com Nicole Garcia; e ‘La Lectrice’, Uma Leitora bem Particular, com Miou-Miou. Como Alain Cavalier, Deville seguiu uma via muito particlar no cinema francês, até obter reconhecimento por seu estilo refinado. E não era só ele. Era também Nina Companeez, a roteirista e montadora que, passando à direção, fez vários filmes que davam saudade de sua parceria com o ex-marido. Nina tinha ótimas idéias, mas filmava mal. ‘L’Histoire Très Bonne et Très Joyeuse de Colinot Trousse-Chemise’, com Brigitte Bardot – no Brasil se chamou só ‘Colinot’ – poderia ter sido um outro ‘Libertino’ (uma libertina) com a direção de Deville.