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Cultura » Michael Mann reinventa Petri?

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Luiz Carlos Merten

24 Julho 2009 | 11h01

Tenho tido pouco tempo, ultimamente, para alimentar o blog como gostaria. Ontem, foi uma loucura. Tinha diversas matérias pela manhã – as que estão hoje no ‘Caderno 2’, incluindo a de ‘Inimigos Públicos’ – e à tarde, além dos filmes na TV de domingo, no Telejornal, tive de ir ao consulado do México, para tratar de detalhes de visto. Gosto cada vez mais do novo Michael Mann. Ontem, conversei rapidinho com Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, sobre o filme. Assinalei dois pontos. Tenho entrevistado muita gente na minha vida, mas nunca entrevistei Michael Mann para dissipar essa dúvida cruel. Desde ‘O Informante’, identifico no cinema de Mann um interesse acentuado pelo personagem sofista que caracteriza a obra de outro grande diretor, o italiano Elio Petri. Sempre me perturbou muito que o começo e o final de ‘Colateral’ lembrem tanto – me lembraram, pelo menos –, outro grande Petri, ‘Os Dias São Numerados’. Não sei se forço a barra, mas ‘Inimigos Públicos’ é, para mim, o ‘Todo Modo’ de Mann. Como a adaptação de Leonardo Sciascia, uma denúncia da classe dirigente italiana – o filme chamou-se ‘Juízo Final’ no Brasil –, ‘Inimigos Públicos’ me parece a definitiva pá de cal no malfadado governo Bush Jr. Todo cinéfilo reconhece – é o abre da minha matéria de hoje no jornal – que o cinema de gângsteres floresceu e atingiu seus pináculos em momentos de crise da sociedade norte-americana, nos anos 30, 70 ou agora, quando Michael Mann reinventa o gênero. O filme conta, aparentemente, a história da caçada ao inimigo público número um, John Dillinger, mas não é por acaso que seu título seja plural, ‘Inimigos Públicos’. J. Edgar Hoover é a força secreta no filme. Como um pequeno César, de olho no que ocorre na Itália, sob Mussolini, ele quer modernizar o combate ao crime, introduzindo métodos científicos, coisa e tal, mas na verdade ele está é manipulando a opinião pública e tentando colocar o birô, o FBI, acima, ou à margem, da lei. Neste sentido, Purvis (Christian Bale) e ele são tão nocivos ao interesse do público quanto Dillinger, aliás, mais até. Dillinger vê no povo seu aliado e prefere roubar o dinheiro dos bancos ao dos populares. Quando o letreiro final informa o que ocorreu com Purvis, isso já vinha sendo colocado pelo diretor, que gosta de discutir a ética do trabalho. Purvis é um homem que perde sua alma. A solidão o corrói e, por isso, é tão bonita a cena em que ele socorre Marion Cotillard,. que está sendo abusada por um de seus comandados. Gostei demais do filme. O uso que Mann faz da tecnologia digital é muito bacana. Hollywood a usa para efeitos, ele, para filmar diálogos e tiroteios. Cria-se uma sensação de urgência que me fascina. Sei lá que crítico norte-americano achou as cenas noturnas borrões e caiu matando no filme por isso. Santa ignorância! Comentei com o Zanin este lado ‘Petri’ que o cinema de Michael Mann tem e um dia espero esclarecer se é consciente do diretor ou se é uma invenção minha. O outro aspecto que me seduziu foi… Marion Cotillard. Ela é tão maravilhosa como Piaf que sempre pensei que qualquer coisa que fizesse depois daquilo seria, forçosamente, um anticlímax. Marion foi minha grande surpresa em ‘Inimigos Públicos’ e não porque eu achasse que ela não teria talento para segurar o papel. Johnny Depp, como Dillinger, se refere a ela, o tempo todo, como ‘doll’, mas Marion é tudo, menos uma boneca. A mulher nunca é boneca, mero ornamento, no cinema de Michael Mann. Gong Li é esplendorosa em ‘Miami Vice’. De fundo para Marion, Michael Mann teve uma sacada de gênio. Já que ela foi Piaf, quem poderia criar a trilha para Marion? Teria de ser outra (muito) grande. Quem maior do que Billie Holiday, cujo cinquentário de morte se comemora este ano? ‘Bye Bye Black Bird’… O último plano de Marion em ‘Inimigos Públicos’ é sublime. Chorei. Gostaria de acreditar que vocês talvez se emocionem tanto quanto eu.