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Luiz Carlos Merten

30 Março 2007 | 14h04

CIUDAD DE MEXICO – Cheguei ontem de manhah, mas soh aa tarde encontrei tempo para tentar postar alguma. coisa. Naoh consegui. Simplesmente naoh pude entrar no sistema. Lamento, porque ontem tinha algumas coisas que gostaria de ter comentado no Festival Internacional de Documentarios Eh Tudo Verdade. Lamento tambem que, mais uma vez, sem, ter trazido laptop, eu me veja forcado a usar um teclado estrangeiro, o que vai fazer com que, de novo, surja alguem para comentar como escrevo mal. Espero que tenham visto El Telon de Azucar, que Amikr Labaki batizou como Cortina de Acucar. Desde Berlim, voces que me acompanham sabem que havia ficado muito emocionado com o filme de Camila Guzman Urzua. Espero que tenham visto tambem Serras da Desordem, do Andrea Tonacci, e mais que isso – que tebham lido meu texto de ontem do Estado, fazendo uma ponte entre os documentarios do Tonacci e do Joao Moreira Salles, que me parecem muito proximos em pontos essenciais, por mais diferencas que apresentem a um olhar superficial. Respeito, sem gostar muito, o filme do Tonacci, mas ele sabe que adoro Bang Bang. Gostei mais de Santiago, mas para voces verem como saoh as coisas, o Joao tambem deve saber que naoh gosto muito de Entre-atos nem de Nelson Freire. Os novos trabalhos dos dois, Tonacci e Joao, situam-se nas bordas do documentario e da ficcao e, em ambos, os personagens diante da camera estao ali para que os autores falem, antes que tudo, deles. Santiago eh um personagem extraordinario. O indio de Tonacci naoh eh menos, mas eu confesso que nao consigo sentir muita empatia por ele porque a barreira da lingua me impede. Tem coisas que ele diz que eu gostaria de compreender. Vou morrer tentando descobrir o que ele diz na cena final, do aviao. Nao sou burro. Sei porque o Tonacci fez o filme deste jeito, mas isso naoh satisfaz minha curiosidade nao atendida em relacaoh ao personagem. No final, sei mais da interioridade do diretor que da dele e isso me causa certo incomodo, confesso. Santiago, pelo menos, transparece inteiro, apesar do autoritarismo do Joao, que assume que seu filme trata menos da relacaoh de um diretor com seu personagem do que da do filho do banqueiro com o mordomo da casa de seu pai. Mas chega de E Tudo Verdade, por ora. Falo agora aa tarde com a Hilary Swank. Imagino que vah ser legal. Uma atriz duas vezes vencedora do Oscar, ligada ao cinema de autor, estrela um terror bem hollywoodiano. Por que? Para acrescentar um grande exito de bilheteria ao curriculo? Para mostrar que seu nome eh chamariz de publico? Eh o que pretendo saber. Quero dizer tem um monte de coisa interessante passando aqui e que pretendo comentar, mesmo que naoh seja agora. (Eu mesmo fico nervoso escrevendo com todos esses condicionamentos de idioma e tecnologia). Jah vi A Maldicao das Flores Douradas, do Zhang Yimou, revi A Morte do Senhor Lazarescu, de Cristo Puiu, que amo, e hoje pretendo ver A Vida dos Outros, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Soh acrescento que 300, que estreia hoje no Brasil, estreou arrebentando no Mexico, na semana passada, batendo recorde de bilheteria de filme adulto nos cinemas do pais. Igual, naoh mais, soh A Paixao de Cristo, de Mel Gibson, mas no caso do outro jah era esperado – o Mexico, afinal, eh um pais fortemente religioso. Agora mesmo, a Cidade do Mexico estah em guerra, por forca da polarizacao entre partidarios e oponentes de um projeto proh legalizacao do aborto. Ontem houve uma passeata que paralisou a area central. Ontem tambem vivi uma experiencia curiosa ou terrorifica, depende. Jah vim varias vezes aa Cidade do Mwexico e ando muito de metroh, porque o transito de superficie aqui eh caotico e os taxis, entaoh, disputam para ver quem corre mais. Jah andei no metroh de Toquio, na hora do rush, mas o da Cidade do Mexico eh inacreditavel. Para entrar, fui empurrado numa avavalanche que ameacava me esmagar. Na saida, soh consegui descer tres estacoes depois e, assim mesmo, de camisa rasgada, por causa do esforco. Ainda bem que este passeio de metroh foi recompensado. De camisa rasgada e tudo assisti a Desejo Que Atormenta, que o Bolognini adaptou de Italo Svevo, no comeco dos anos 60 (Senilita), com Claudia Cardinale, Tony Franciosa e Betsy Blair. Sempre quis rever este filme e ao descobrir que passava num cineminha de arte, no fim do mundo, me mandei. Mais vale um gosto do que seis vintens. Todo Bolognini estah ali. O detalhismo, que lhe valeu durante tanto tempo a etiqueta de sub-Visconti, a beleza da fotografia em preto-e-branco e, principalmente, os temas da impotencia e do homem e da mistificacaoh da mulher, que o obcecava na epoca (O Belo Antonio, Caminho Amargo, todos com La Cardinale, eh curioso). Espero, realmente, que a Versatil, depois de lancar a obra de Zurlini em DVD, cumpra sua promessa e resgate tambem a de Bolognini.