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Luiz Carlos Merten

06 Fevereiro 2010 | 08h42

BELO HORIZONTE – Preparem-se que o post vai ser longo, e sem parágrafos. E de início, um esclarecimento. Escrevi este post ontem à noite, sexta, enquanto aguardava, no lobby do hotel, a chegada de meus amigos, os atores Rodfolfo Vaz e Fernanda Vianna, para jantarmos. Não consegui salvá-lo no blog e, por via das dúvidas, copiei como e-mail para mim, para tentar postar mais tarde, o que faço somente agora, já na manhã de sábado. Vamos ao post.
Quantos dias sem dar notícias? Desde que deixei Ouro Preto, na segunda-feira, sem conseguir validar os comentários que estavam chegando… Viemos, meu amigo Dib Carneiro e eu, para BH. No caminho, passamos por Sabará e eu pude rever a capelinha de Nossa Senhora do Ó, que conheci há 34 anos, por aí. Brinquei com a funcionária que tomava conta do local – ela não era nascida, quando lá estive pela primeira vez. E não era mesmo. Vi coisas belíssimas nessa viagem a Minas, mas nada, nem a estatuária do Aleijadinho em Congonhas do Campo nem as pinturas de mestre Ataíde em OP, supera o impacto que, para mim, tem essa mistura rara de barroco mineiro e ‘chinesice’ que é a capelinha do Ó. Quando me despedi dela, jovem ainda, achei que nunca mais voltaria. Nunca mais é uma palavra muito dura, ainda mais para quem, como eu, mesmo atraído pelas descobertas, gosta sempre de retomar velhos caminhos, velhos lugares. Na minha vida, estou sempre querendo voltar aos lugares que me marcaram, e tenho conseguido. Assisti a um filme, ‘O Fim da Escuridão’, a outro filme, ‘High School Musical – O Desafio’, e a uma peça, ‘Chico Rosa’, aqui na capital de Minas. Pretendo falar sobre todos, mas agora quero relatar um pouco o que foi meu dia de hoje. Desde o tempo de ‘Salmo 91’, e através de Gabriel Villela, Dib Carneiro fez amizade com uma mineirada bacana. Queríamos ir a Inhotim e Rodolfo Vaz, o grande ator do Galpão que venceu o Shell pelo ‘Salmo 91’, nos levou de carro. Rodolfo fez não sei se o caminho mais longo, mas o mais belo, com certeza. Fomos pela Serra da Moeda, passando pelo restaurante que é ponto de largada para vôos livres. O restaurante tem o sugestivo nome de Topo do Mundo. Na ida para Tiradentes, na van da Mostra, acho que escandalizei meus companheiros de viagem. Sou um cara 100% urbano, não curto serra nem mar. Olho uma vista bonita, registro o que vi e pronto. Hoje, queria que todo o povo daquela van estivesse no Topo do Mundo comigo – ave, James Cameron! – para viajar naquela imensidão de verdes. Um mundaréu de serras sem fim, diferente das coxilhas e lhanuras do Rio Grande. E a descida da Serra da Moeda, rumo a Inhotim, teve direito a trilha sonora do grupo Uakti. Rodolfo caprichou no translado. E ele ainda contava histórias de teatro e cinema. Rodolfo foi ator de ‘As Tentações do Irmão Sebastião’, de José Araújo e contou histórias da filmagem, episódios dignos de Werner Herzog em seus momentos mais delirantes. O filme trabalha com sincretismo religioso e o diretor José Araújo rodou cenas inteiras com médiuns incorporados com as entidades do candomblé, como se estivessem em transe hipnótico. Não me sinto autorizado aqui a repetir aqueles relatos, muitos deles bastante íntimos sobre pessoas que não conheço, mas o Rodolfo falava e eu ia visualizando os filmes, como se tudo aquilo fosse um cinema falado. Quantos filmes ele nos contou? Pelo estranhamenmto, seriam programas para o próximo Festival de Tiradentes… Inhotim foi uma descoberta. Jotabê Medeiros fez uma matéria de denúncia no ‘Caderno 2’, coisas de verbas, favorecimentos, mas o que Inhotim oferece não está no gibi. Os pavilhões montados no meio da mata encerram experiências audiovisuais únicas. Você já pensou em ouvir o som da terra? Vá a Inhotim. Aproveite e ouça a trilha que Steve McQueen, homônimo do astro de ‘Bullitt’ e diretor de ‘Hunger’, criou para imagens que a Nasa selecionou para lançar ao espaço, como cartas a outras civilizações, com testemunhos sobre a raça humana. Minha imaginação começou a funcionar. Alguns pavilhões são tão futuristas que poderiam servir de cenário para as aventuras de James Bond. Eu já via o Daniel Craig solto por ali, batendo e arrebentando. De volta ao hotel, vou jantar daqui a pouco com Rodolfo Vaz e sua mulher, a atriz Fernanda Vianna, que acaba de fazer uma participação no novo filme de Eryk Rocha. Espero ouvir muitas mais histórias de cinema. Amanhã, volto para São Paulo, mas será por pouco tempo. Na terça. já estarei voando para Berlim. Embora oficialmente em férias, não deixei de fazer os filmes na TV do ‘Caderno 2’ nem numerosas entrevistas. Entre outras, com Elia Suleiman, diretor de ‘The Time That Remains’, no ‘Caderno 2’ de hoje, e Bong Joon-ho, de ‘Mother’, no de amanhã. Não percam o filme de Suleiman nem o de Joon-ho. Haviam dois filmes sul-coreanos no Festival de Cannes do ano passado. O melhor, o de Joon-ho, estava na mostra Un Certain REgard. Uma história sobre maternidade levada a extremos, estrelada por Kim Hye-jo (ou ja?), a Fernanda Montenegro da Coreia do Sul, famosa por seus papéis de mãe, mas que nunca fez uma heroína como a desse filme forte, raro e, no desfecho,sombrio. E aí? Mexam-se! Saiam de casa para ver Suleiman e Joon-ho. Vai ser bom…