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Luiz Carlos Merten

09 Abril 2009 | 14h46

PORTO ALEGRE – Cheguei e do aeroporto fui diretamente para o Hospital São Francisco, onde meu amigo José Onofre está internado, em coma profundo. Tomei um susto. Há tempos não via o Zé. Cheguei ao hospital, a enfermeira me indicou o leito. Ele está entubado, inconsciente. Velhinho, cabelo branco, mas sereno… Me chocou que, pelo menos naquele momento, estivesse sozinho. Fiquei por ali um pouco, o horário de visita estava se encerrando. Saí imerso em 1001 pensamentos. Sob certos aspectos, as visitas a Porto Alegre têm se tornado muito penosas para mim. Amo a cidade em que nasci e vivi até os 40 anos. Nunca achei que sairia daqui. Fui para São Paulo e minha vida mudou. Cada vez mais Porto vai virando um cemitério, quando retorno. Parentes, amigos, todos se vão. Sinto-me um sobrevivente. No avião, já me baixara uma coisa. Lembrei-me de como, quando jovem, o feriadão de Páscoa era a senha para que Tuio Becker, Hiron Goidanich (o Goida) e minha ex-mulher Doris Bittencourt corrêssemos a Montevidéu para ver, lá, os filmes que eram proibidos pela censura do regime militar instalado no Brasil. Viajei nas lembranças e aí dei de cara com o Zé naquele leito. José Onofre foi uma figura decisiva na minha vida. Era o chefe do departamento de audiovisual do Colégio Israelita Brasileiro, em Porto, onde trabalhamos, Tuio Becker e eu (foi meu primeiro emprego). Trabalhei depois com o Zé na ‘Folha da Manhã’, no ‘Diário do Sul’. Quando vim para São Paulo, foi ele quem me abriu a porta do ‘Estado’. José Onofre era editor do ‘Caderno 2’. Parece desleal dizer isso, mas Zé pensava bem a cultura, o cinema, a literatura, suas áreas de interesse, mas não era um grande editor, raros são, quando se trata de colocar a mão na massa. José Onofre foi uma das maiores inteligências que conheci. Estou colocando no passado porque, neste período em que ele está no hospital, voltou do coma e a enfermeira me disse que ficou variando por um par de dias, sem dizer coisa com coisa, até regressar ao coma. Sua mente parece ter sido afetada. Tive dois faróis na minha vida profissional, e foram o Zé e Jefferson Barros, outro gênio cujas preferências, curiosamente, eram as mesmas. Ambos editaram ‘Mundo’, ambos pensaram o cinema e a literatura – Zé amava os policiais, Hemingway, Fitzgerald; Jefferson colocou Stendhal num altar. Secretamente, sei, porque convivi com ambos, que viviam se mesurando (e tinham, cada um, a convicção de ser melhor do que o outro). Ter tido o Zé e o Jefferson como mestre foi um dos privilégios da minha formação. Foram meus gurus, mas eu nunca fui um discípulo respeitoso. Amava ‘Johnny Guitar’, de Nicholas Ray, e o Jefferson, machista, invocou sei lá que visão de mundo para esculhambar a hora da pistola de Joan Crawford. Ele queria viver naquela fantasia de um mundo em que, no western pelo menos, homens e mulheres respeitassem a tradição em espaços delimitados. O duelo final tinha de ser uma instituição masculina. Duas mulheres duelando? Nunca! Brigamos feio numa meia-noite, quando ainda havia aquele velho café da Rua da Praia, no final de uma sessão (do Ópera ou Rex, não me lembro). Afastei-me cada vez mais dele, mas no meu imaginário, na minha formação, ele foi mais importante do que qualquer outro teórico. E foi para o Jefferson que eu escrevi um dos meus mais belos textos. Não sou de ficar rememorando nem choro o leite derramado, mas Jefferson editou um caderno especial sobre o fim da Guerra do Vietnã e me encomendou um texto sobre Jane Fonda, a imagem definitiva do protesto contra aquela guerra. Quando a prefeitura de Porto Alegre editou o livro com meus escritos na imprensa gaúcha, pedi que localizassem aquele texto, mas nem sinal. Tenho certeza que o escrevi e de que foi publicado. Jefferson me abraçou e disse que eu havia escrito um texto que ele gostaria de ter assinado. Ele, tão brilhante! Jefferson, como eu, amava Visconti e Losey, Minnelli e Godard, Joseph Mankiewicz e Anthony Mann. Também briguei certa vez com o Zé, e foi por causa de ‘Cantando na Chuva’, que elogiei, na antiga ‘Folha da Manhã’, quando o filme reestreou e ele fez uma revisão do filme acabando com a metalinguagem de Stanley Donen e Gene Kelly. Do Zé nunca me afastei, exceto nessa fase final. Não exagero ao dizer que foi quem me esculpiu profissionalmente. Quando cheguei em São Paulo, ele me deu mais espaço do que jamais tivera (e sempre tive muito). Confiando em mim, José Onofre me permitia fazer quase que o ‘Caderno 2’ inteiro e eu nunca fiquei satisfeito. Sempre queria mais. Zé amava Visconti, Losey, Godard, Minnelli – e Ford. Jefferson trabalhou por um breve período fazendo crítica de cinema na ‘Veja’ e depois foi colaborador do ‘Caderno 2’. Outro dia li críticas dele sobre ‘A Condessa Descalça’ e ‘A Inglesa Romântica’, nas pastas de Mankiewicz e Losey, que me fizeram ter inveja (no bom sentido). Tenho inveja sempre que encontro os textos de José Onofre sobre… Qualquer coisa. ‘Caninos Brancos’, de Jack London; ‘O Grande Gatsby’, de Scott Fitzgerald; ‘Os Mortos’, de John Huston (e James Joyce). São textos definitivos. Decorei frases inteiras. Vou parar. Preciso caminhar um pouco, espairecer, como se diz. Meus mestres. Com carinho. E respeito.