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Cultura » Meus dez melhores foram… onze!

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Luiz Carlos Merten

31 Dezembro 2010 | 11h31

Não sou muito de fazer isso, mas vou colar aqui no blog minha capa de anteontem do ‘Caderno 2’, com os melhores de 2010. Fui redigindo o texto e, no calor da hora, ou da escrita, não apenas ‘O Profeta’ ficou de fora como descobri que meus dez mais na verdade foram onze! Vamos lá.
Ao contrário da irmã, Sofia, o talentoso filho de Francis Ford Coppola, Roman, não conseguiu se desenvolver na carreira e, após um primeiro filme promissor, dirige a segunda unidade de ‘Tetro’. O filme é, entre outras coisas, sobre a dificuldade de viver à sombra do gênio. Foi um tema recorrente no ano que se encerra. Também está em ‘Vincere’, de Marco Bellocchio. Ambos tratam de relações familiares. Um garoto que procura o irmão mais velho, a quem adora, e descobre segredos familiares – desvenda o mistério da própria identidade. A mulher renegada de Benito Mussolini, internada como louca porque ousa proclamar ao mundo o que o Duce quer que permaneça secreto – que ele tem um filho.
‘Tetro’ e ‘Vincere’ foram os melhores filmes do ano? Seria desconsiderar o extraordinário aporte do cinemão – sim, Hollywood –, por meio de obras como ‘A Origem’, de Christopher Nolan, e ‘Toy Story 3’, de Lee Unkrich. Na retrospectiva da década, que o ‘Caderno 2’ publicou no domingo, 26, José Padilha, autor do fenômeno do ano – ‘Tropa de Elite 2’ –, observou que os processos digitais, que permitiram a entrada das tecnologias computadorizadas no cinema, mudaram não apenas os métodos e os meios de filmagem, mas também a força das imagens na tela. Basta ver o realismo fantástico que os desenhos animados alcançaram – azar de quem acha que ‘Toy Story 3’ é só sobre bonecos (e para crianças).

Num certo sentido, a retrospectiva do ano corrobora a da década. As novas tecnologias continuaram dando as cartas, mas tivemos gloriosas exceções – os filmes que ainda apresentam suntuosas imagens captadas em celuloide. Independentemente do processo de captação, o perigo, advertia Padilha, é achar que imagens incríveis podem substituir a boa dramaturgia. ‘Vincere’ reinventa Antígona, ‘Toy Story 3’ dá nova roupagem ao desfecho do western clássico ‘Os Brutos Também Amam’ (Shane) e, no caso de ‘A Origem’, o próprio título tem valor de esclarecimento. O cinema e a interpretação dos sonhos, segundo Freud, nasceram juntos e Nolan transformou em pathos as ferramentas de investigação freudianas.
Num ano rico de ideias e formas, o Brasil fez história ao estabelecer novos recordes de participação no próprio mercado. Já virou lugar comum dizer-se, o que é verdade, que o mercado de cinema do País é formatado para a produção estrangeira. ‘Tropa 2’ não é apenas o filme brasileiro de maior sucesso de todos os tempos – o mais visto – como, ao ultrapassar 11 milhões de espectadores, se converteu também no número 1, incluídas as produções de Hollywood. Embora os críticos vivam dizendo que o sucesso de público não é a única ferramenta – o que eles dizem, na verdade, é mais incisivo, que não é a melhor – para se avaliar a qualidade de um filme, ninguém é louco de subestimar o extraordinário significado da vitória de Padilha e de seu ‘Tropa 2’. O filme, além do mais, antecipou um movimento da sociedade e a invasão das favelas cariocas, numa operação policial/militar para erradicar o tráfico, dificilmente teria ocorrido sem o aval do capitão, agora coronel Nascimento da ficção.
Viver à sombra, encaminhar-se para a luz – a busca da consciência. Por uma curiosa – estranha? – coincidência, o tema do ano virou metáfora da política brasileira, porque a presidente eleita (e que assume depois de amanhã) também terá de sair da sombra do atual presidente para dizer a que vem. Por falar em sombras, a mais terrível história de vingança do ano veio confirmar as qualidades que o público gosta de atribuir ao cinema argentino, no fundo lamentando que a produção brasileira não se assemelhe à do Prata. Um cinema de classe média, de testemunho, solidificado por virtudes de diálogo, interpretação e realização – ‘O Segredo dos Seus Olhos’, de Juan José Campanella. O desfecho de ‘O Segredo’ é puro horror – o torturador torturado, encerrado na própria miséria. Mas o filme de horror do ano, dos últimos anos, foi outro.
‘A Rede Social’, de David Fincher, usa a história do criador do Facebook para indagar sobre o aspecto mais sinistro desse desenvolvimento tecnológico que, até aqui, temos elogiado. As novas tecnologias – o digital – democratizaram o acesso à cultura e à informação. Hoje em dia, qualquer um consegue fazer um filme por dois vinténs, difícil é conseguir uma plataforma parta ele – a menos que seja a virtual. Põe no YouTube, divulga pelo twitter. Assim se criam os fenômenos na atualidade. ‘A Rede Social’ vai além do terrível. O mundo novo é admirável ou assustador? O hacker que criou o Facemash, base do Facebook, atropela o humanismo, exibe sua falta de ética ao expor a namorada e chega ao final do filme como o grande babaca que é. Em vez de ser execrado em praça pública, vira bilionário.
Antonio Gonçalves Filho definiu Mark Zuckerberg como um Cidadão Kane autista que reflete o hedonismo vicioso da juventude do século 21. A crítica, evidentemente, não é aos jovens, mas à sociedade amoral e competitiva que os impulsiona, mais do que estimula, a ser como são. Neste sentido, não houve outro filme tão poderoso quanto ‘A Rede Social’ em 2010. Contra essa nova barbárie, um pouco de inocência não faz mal – ‘Um Doce Olhar’, do turco Semih Kaplanoglu, é colírio contra tanta impureza que nos assalta.
Só não foi, disparado, o melhor filme sobre a infância do ano porque houve ‘O Pequeno Nicolas’, com que Laurent Tirard deu vida aos personagens de Sempé, e também ‘Antes Que o Mundo Acabe’, uma joia de delicadeza da cineasta Ana Luiza Azevedo, que fala, com imensa sensibilidade, sobre o mito de passagem e a paternidade. Esse é sempre um temas essencial. Posto que a família é a célula mater da organização social, a figura do pai coloca sempre em discussão a autoridade. Do Chade, raridade – um filme africano! –, veio ‘Um Homem Que Grita’, de Mahamat Saleh Haroun. Um pai rival do próprio filho. Outra tragédia familiar, num ano que foi pródigo nelas.