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Meu tributo a Milos Forman (e ao cinema que se radicaliza)

Luiz Carlos Merten

14 Abril 2018 | 18h11

João Paulo Assis me ligou hoje cedo pela manhã para anunciar a morte de Milos Forman. Escrevi um texto para o portal, acrescentei informações que achava importantes num segundo texto que não sei se foi para o impresso. Milos Forman! Ele se tornou conhecido com a nouvelle vague checa nos anos 1960, por meio de filmes como Os Amores de Uma Loira, O Baile dos Bombeiros e Pedro, o Negro. Após o esmagamento da Primavera de Praga, Forman ressurgiu nos EUA. Busca Implacável, Hair, o Big Five de Um Estranho no Ninho, Na Época do Ragtime, Amadeus, Valmont, O Povo contra Larry Flynn, O Mundo de Andy. Gosto de pensar no que pode ter ocasionado a grande mudança em Forman. Como ele passou do cineasta libertário da Loira – pequenas vidas, divertidas observações sociais contra a burocracia do regime comunista – para algo muito mais contundente e abrangente. Na ‘América’, Forman contesta as instituições. A democracia, o Judiciário. Quando e por que isso ocorre não deixa de ser material para especulação. Forman sobreviveu ao nazismo, e o pai morreu num campo de concentração. Soreviveu à Primavera de Praga e viu o sonho do sociaslismo democrático esmagado pelos tanques soviéticos. Em 1972, era um dos oito autores que filmaram a Olimpíada de Munique. O sonho olímpico convulsionado pelo ataque do terror. Há 46 anos, eu já era jornalista profissional – em Porto Alegre, na Folha da Manhã. Jefferson Barros, o grande crítico, era o editor de mundo. Lembro-me da batalha épica do Jefferson para tirar do Esporte a cobertura dos eventos na cidade olímpica. Até eu escrevi que algo muito importante estava se passando, e o mundo nunca mais seria o mesmo. Como interpretar aquela imagem do rosto coberto do terror? Foram quase mais 30 anos até o ataque às torres gêmeas, em Nova York, no 11 de SeEtembro de 2001. O cinema de Forman mudou. Radicalizou-se. Ragtime não foi/é somente o maior ataque de Hollywood ao racismo. O filme faz a autópsia da sociedade branca, que detém o poder, o dinheiro e, no quadro da história, domina essa nova ferramenta, o cinema. Forman era branco, mas, na época, não se discutia a questão da raça, se um afroamericano poderia ter feito outro filme tão forte, já que mais parecia impossível. Tenho viajado na lembrança desde essa manhã. Cheguei a (re)ver, no YouTube, a abertura de Hair. ‘When the moon is in the 7th dawn…’ O sonho hippie, esmagado, no filme, pela máquina guerreira no Vietnã. Puta filme belo. Numa dessas revistas que comprei recentemente, acho que uma Cahier, tem o resgate de Valmont. Contemporâneo da adaptação do romance epistolar de Choderlos de Laclos por Stephen Frears e Christopher Hampton, Valmont parecia, na época, menos pop que Ligações Amorosas. Hoje, visto com outro olhar… Parece crescer, anuncia a revista. Será? Milos Forman foi ator, em 2011, do musical de Christophe Honoré, Bem-Amadas, que concorreu em Cannes. Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni, mãe e filha. O amor em tempos de aids. Até como ator, Forman está vivo no meu imaginário. Um grande, imeno artista.