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Luiz Carlos Merten

13 Dezembro 2008 | 13h00

Prêmio especial do júri em Cannes, prêmio da crítica de Nova York, Oscar de melhor filme estrangeiro – perdi a chance de falar sobre ‘As Férias de M. Hulot’, de Jacques Tati, homenageado na semana passada pela Sessão Cineclube do HSBC Belas Artes, mas não perco agora a oportunidade de falar sobre ‘Meu Tio’ (Mon Oncle), que ganhou todos os prêmios acima. O ano era 1958, em plena explosão da nouvelle vague e o Festival de Cannes atribuiu seu prêmio máximo, a Palma de Ouro, ao russo Mikhail Kalatozov, por ‘Quando Voam as Cegonhas’. Tati ganhou seu prêmio especial e a nouvelle vague ainda teria de esperar pelo prêmio de direção para François Truffaut, por ‘Os Incompreendidos’, pelo da crítica para Alain Resnais, por ‘Hiroshima Meu Amor’, no ano seguinte. Numa carreira que se estendeu por quase três décadas – o primeiro curta foi ‘L’École des Facteurs’, em 1947; o último longa, ‘Parade’, é de 1974 e ele morreu oito anos depois, em 1982 -, Tati talvez seja o mais bissexto dos autores. Ele deve sua glória a não mais do que sete filmes no total e a um personagem, M. Hulot. Costuma-se dizer que todo homem de comédia é, antes de mais nada, um triste, até um trágico. Ninguém é mais solitário do que M. Hulot, de tal forma que Tati antecipa, como comédia, a solidão e a incomunicabilidade dos burgueses entediados da trilogia de Michelangelo Antonioni. M. Hulot vem não se sabe de onde – nas ‘Férias’, ele chega àquela praia e cataliza todas as desgraças. Em ‘Meu Tio’, é contextualizado – é o ‘oncle’ desse menino burguês que vive numa casa mecanizada como aquele assustador mundo novo que Charles Chaplin antecipou em ‘Tempos Modernos’ – mundo cujas engrenagens parecem devorar os indivíduos. O tio é gentil, mora num romântico sótão, usa bicicleta e representa uma França à l’ancienne, que vai sendo substituída por essa mecanizada. A casa moderna, planejada para ser perfeita, revela-se uma armadilha que o tio Hulot destrói alegremente. Ele fala pouco, e até quando fala as palavras parecem incompreensíveis. A música participa da ação, não como um musical, mas compondo uma espécie de comentário melódico sobre os personagens. A gente ri, eu pelo menos rio, e muito. Cinematograficamente, ‘Meu Tio’ é um dos filmes mais perfeitos já realizados. Aspira a uma totalidade cômica na qual cada elemento é essencial (e cumpre um papel critico). Haviam-se passado cinco anos entre ‘As Férias do Sr. Hulot’ e ‘Meu Tio’. Passsaram-se mais nove entre o ‘Tio’ e ‘Playtime”, que no Brasil recebeu o título de ‘Tempo de Diversão’, depois mais quatro para ‘Trafic – As Aventuras de M. Hulot no Tráfico (mas deveria ter sido ‘tráfego’) Louco’. ‘As Férias’, ‘Meu Tio’ e ‘Playtime’ compõe, se você quiser, uma espécie de trilogia. São as três obras-primas de Tati. Não são filmes ‘narrativos’. O mais radical é ‘Playtime’, que se compõe basicamente de não mais do que duas seqüências. Na primeira, turistas norte-americanos chegam a Paris e descobrem uma cidade de ‘buildings’, e de arquitetura fria e desumana, como aquela que deixaram para trás, nos EUA. Na segunda, eles vão à inauguração de uma boate que ainda não está pronta. Quase morria de rir com uma piada que é assim – o porteiro segura o que seria a alça da porta de vidro, mas a porta não existe e, afinal, como se supõe que seja de vidro, ninguém nota. Lembro-me de ter lido em algum lugar, há muito tempo, que a história do burlesco começou com um personagem (Carlitos), multiplicou-se por dois (O Gordo e o Magro), por quatro (Os Irmãos Marx) e chegou a M. Hulot, que compõe um caleidoscópio de seres atrapalhados, desdobrando-se em todos os personagens em cena (e que vão aumentando, cada vez mais, a confusão. ‘Playtime’ foi saudado, há 40 anos, como um acontecimento do porte de ‘2001’, de ‘Terra em Transe’ e dos grandes filmes de Godard que estavam revolucionando o cinema. ‘Playtime’ foi feito em estúdio, com cenários gigantescos. ‘Traffic’ também custou os tubos, e tem a cena famosa em que os carros ficam presos na rótula. O humor de Tati não era fácil, muito elaborado (e intelectualizado). O público francês preferia o riso mais simples e direto de Louis de Funès, de ‘A Grande Escapada’ e ‘As Loucas Aventuras do Rabi Jacob’. Os problemas financeiros arruinaram Tati, os produtores fugiam dele. Como seu personagem, foi outro solitário do cinema francês – nisso também se aproximando de outro diretor imenso, Robert Bresson. Não vou pesquisar no Dicionário de Cinema, mas lembro que Jean Tulard diz mais ou menos ou seguinte – que a gente pode rir mais com outros atores/autores de comédias, mas Tati foi importante, eu diria que foi fundamental, porque lançou um outro olhar (sobre o humor e o mundo). Perdi ‘As Férias’, mas quero rever ‘Meu Tio’ e só espero que ‘Playtime’ também integre a programação do HSBC.