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Meu paraíso, com John Carter

Luiz Carlos Merten

12 Março 2012 | 09h42

Desisti ontem de assistir a ‘Paraíso’. Ou, melhor, ao sair da redação do ‘Estado’, fui almoçar no Eldorado com minha filha. Aproveitei e comprei o ingresso para ver ‘John Carter’. A sessão era às 15h30, fiz minhas contas, em torno de duas horas, sairia às 17h30 e, de táxi, correndo, chegaria às 18h30 no Sesc Belezinho. A sessão terminou às 6, cravadas, e eu ainda fiquei uns cinco minutos vendo os créditos até o fim. Bye-bye, ‘Paraíso’. Afinal, pelo que me dizem, não é mesmo a peça de meu amigo Dib Carneiro, que continua, como ele diz, inédita. Mas quero dizer que quem me encontrasse ontem, no final de tarde, ficaria intrigado. O filme de Andrew Stanton me produziu uma espécie de euforia. Na verdade, começou antes. Gostei muito do trailer de ‘Os Vingadores’ e espero que o filme corresponda. Quanto ao ‘John Carter’, reencontrei as leituras da minha infância e adolescência. O cinema nunca fez justiça à imaginação delirante de Edgar Rice Burroughs. Sua viagem a Pelucidar consegue ser melhor do que a ‘Viagem ao Centro da Terra’ de Jules Verne e eu amava os relatos em que Tarzan encontra, na savana africana, o reino perdido de Camelot ou o império romano. E eu sempre amei as mulheres de Tarzan, menos Jane do que Nemone, com seu leão de ouro, ou La, a sacerdotiza de Opar, última descendente de mulheres deslumbrantes que nascem numa civilização de (homens) mongoloides. O filme começa acompanhando John Carter no final do século 19 e, de repente, num salto no tempo, a narrativa prossegue em Marte. O Velho Oeste, a Londres da rainha Vitória e… Marte! O planeta vermelho, onde uma raça exótica resiste ao avanço dos emissários da Deusa e seus arquitetos, armados de máquinas poderosas. Neste admirável e assustador mundo novo, o herói, traumatizado pela morte da mulher na Guerra Civil evoca, claro, a cena famosa da casa em ‘Rastros de Ódio’ (John Ford, sempre), redescobre o amor com essa mulher especial, que também é uma cientista. Mas eles são separados graças a uma última artimanha do principal emissário da Deusa. A narrativa, em formato de flash-back, prossegue como se John Carter fosse Thor, que arranja uma maneira de eliminar a distância que o separa da mulher amada no épico com o herói da Marvel. O filme é uma superaposta da Disney. Custou US$ 250 milhões e foi feito para virar franquia. Não faço ideias se foi bem nos EUA, se vai recuperar o investimento nem me interessa. Eu amei. John Carter não apenas vive sua aventura galáctica como outorga ao sobrinho, Edgar Rice, Mr. Burroughs, a tarefa de escrever e da sua mente surgirão Tarzan e John Carter, mais a princesa de Marte. Alguém poderá dizer – o filme oferece uma súmula do que tem proposto a ficação científica pós-‘Guerra nas Estrelas’ e é verdade em parte, porque na realidade Mr. Burroughs é que foi o começo de tudo e George Lucas e James Cameron vão copnfirmar que encontraram nele a inspiração para suas sagas estelares. Em Barsoom, ou Marte, John Carter, da Terra, de Vorginia, encontra aliados fieis, além da princesa Dejah, incluindo aquele cachorro das estrelas que salva sua vida num momento decisivo e tem a cara do ET de STeven Spielberg. Andrew Stanton reencontra aqui preocupações que já estavam em ‘Wall-E’ (a decadência da civilização, o amor etc). Ele mistura ação, romance, fantasia científica e indagações filosóficas sobre a ‘Deusa’ e prova, depois de ‘Missão Impossível – Protocolo Fantasma’, de Brad (‘Ratatouille’) Bird, que o aporte desses diretores vindos da animação está abrindo um novo capítulo da aventura na tela. E, gente, o que é o casal do filme. Não é só beleza – Taylor Kitsch e Lynn Collins têm algo mais mais. Ela é uma feminista do espaço, boa de espada e há um bom diálogo quando o herói, cavalheiresco, diz que ela se ponha atrás dele, a título de defesa, mas depois, ao ver como é boa de luta, reflete que ele é quem deve ficar atrás. E o Taylor, esse, não é mole. Tem o físico digno de Tarzan, desenhado por Burne Hogarth, o mais subestimado dos desenhistas de quadrinhos (o maior?). Já disse que os comics tiveram sempre uma importãncia muito pequena (relativa?) em minha vida, mais absorvido, que sempre fui, pelo cinema. Gostava do Fantasma e de Madrake e, até hoje, lamento que Alain Resnais não tenha conseguido co0mncretrizar seu sonhado projeto sobre o mágico. Já pensaram – o imasginário de Resnais alimentando-se da capacidsade de prestidigitação de Mandrake? A aventura real e a sonhada? NUnca me liguei muito em Superman nem no Homem-Aranha, exceto nos filmes, mas Tarzan e Flash Gordon… A arquitetura de Flash Gordon sempre me pareceu uma coisa de gênio. E Alex Raymond, que desenhou o herói do espaço, criou Jungle Jim baseado em Tarzan. Buster Crabbe, que foi o Flash Gordon dos seriados, também interpretou o homem-macaco. Todas essas misturas e influências, todas as licenças poéticas se cristalizaram em ‘John Carter’. E o centro da aventura é, como sempre, o drama humano, a saga de superação do herói. Havia lamentado perder a junkett do filme, mas nem me lembro mais se foi em janeiro ou fevereiro, mas batia com Tiradentes ou Berlim, que não perco por nada. Teria sidfo bom conversar com Andrew Stanton sobre os ‘meus’ heróis, que, pelo que percebo, são os dele, também.