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Luiz Carlos Merten

22 Julho 2011 | 11h42

Há um momento de ‘Meu País’ em que a mulher italiana de Rodrigo Santoro diz ao marido que o admira porque ele tomou a difícil decisão de proteger a irmã, de cuja existência nem sabia. A garota tem problemas mentais. ‘É monga’, como diz em linguagem chula o outro irmão, interpretado por Cauã Reymond. Mas a mulher, ao mesmo tempo que elogia o marido – e diz que talvez fizesse a mesma coisa –, deixa a pergunta no ar. Por que uma pessoa, Rodrigo, se compromete dessa maneira? O filme de André Ristum não fornece respostas. Dá pistas. A foto do irmão e de Rodrigo, que dilacera Débora Falabella, a compaixão do olhar, quando ele se encontra com a garota pela primeira vez, ainda na clínica. Fui ver ‘Meu País’ ontem pela manhã na Reserva Cultural. Éramos três ou quatro na sala, o ar condicionado parecia estar no último grau (e não me fazia bem), mas eu não conseguia desgrudar o olho da tela. Não me parece que Rodrigo Santoro tenha physique du rôle para o papel. Ele me produziu estranhamento ao aparecer na tela pela primeira vez. Mas, depois, fiquei chapado pela forma como Rodrigo entendeu, e assimilou, seu personagem. Com exceção do breve momento em que agride o irmão na balada, seu movimento é para dentro. Ele se desvitaliza, se contém. É o movimento do próprio filme. ‘Meu País’ não conta propriamente uma história. Em alguns momentos, parece que sim, que vai contar, mas aí Ristum recua. É um filme de climas, de gestos, olhares. Um filme sobre nada que abarca tudo. A cena final é linda. Há ali algo do conceito de família que aproxima ‘Meu País’ de ‘Outubro’, dos irmãos Daniel e Diego Vega, que estreia hoje. Vou voltar muitas vezes a ‘Meu País’. Quero só dizer da fascinação que o filme de André Ristum me produziu. As cenas iniciais – a morte do pai – me produziram um choque. André Ristum viveu boa parte da vida no exílio. Nasceu em Londres, residiu em Roma. O pai biológico, Jirges Ristum, era amigo de Glauber. O outro pai é Ivan Isola. Essa figura do pai mítico – Jirges, mas também Glauber, pai do Cinema Novo – o persegue desde o curta ‘De Glauber para Jirges’. A morte do pai, e aquele pai (Paulo José), cria um clima em ‘Meu País’. O filme é sobre reencontros afetivos, sobre o reencontro do personagem de Rodrigo com o Brasil, sobre a precária e imperfeita família que ele agrupa. Havia visitado o set de ‘Meu País’, num condomínio fechado acho que de Campinas. A cena filmada naquele dia era quando o agenciador vem cobrar a dívida de jogo de Cauã. Havia acompanhado, de longe, o movimento geral da cena, mas não havia captado a intensidade daquele agradecimento, quando Cauã balbucia, mais do que diz ao irmão ‘Obrigado’. O agradecimento, no fundo, é para Débora, porque ela, a monga, percebeu a movimentação estranha e foi pedir socorro a Rodrigo. Não sei se, pela delicadeza, pelo tom anticlimático, ‘Meu País’ é capaz de agradar a muita gente. O que sei é que me apaixonou – gamei. No set, havia percorrido a casa, tal como fora montada pela direção de arte. A espessura daqueles móveis, a história contida nos livros, esculturas e demais objetos de cena. Ontem, olhando o filme na tela, havia algo de viscontiano – o apartamento do Professor, em ‘Violência e Paixão’ – naquelas imagens. Um dos mais belos planos é fugaz, e silencioso. A sala – Débora em primeiro plano, Rodrigo de pé, ao fundo, e Cauã sentado na poltrona, no meio. Não dizem nada, não fazem nada, mas a espessura do plano me tocou. Se existe alguma história ali, somos nós, o público, que a construímos. E Rodrigo, o Santoro, é um puta ator. Imagino que Irandhir Santos, grande como é, tenha merecido o prêmio de melhor ator que recebeu em Paulínia, por ‘A Febre do Rato’, de Cláudio Assis. Estou louco para ver o filme. O que sei é que Rodrigo, tão bom, também merecia o prêmio, mas é um galã, e internacional. Para alguns coleguinhas, isso já o deixa fora das deliberações.