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Cultura » Meu nome é Baal!

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Luiz Carlos Merten

11 Agosto 2009 | 09h23

GRAMADO – Ah, os atos falhos. Estava tão preocupado em acertar o nome de Frederick Forrest, ator de ‘O Fundo do Cocração’ – meu medo era confundi-lo com Frederick Forsyth, o escritor -, que troquei a Teri Garr por Talia Shire, irma do diretor Francis Ford Coppola. Curiosa, mas essa Teri Garr não ‘aconteceu’ na carreira. Estou tentando me lembrar de outras coisas com ela e me vem só ‘Tootsie’, de Pollack, onde é engolida, tadinha, por Dustin Hoffman, num de seus melhores papéis, e por Jessica Lange, linda de morrer. Errei, sim! Estou postando só para reconhecder o erro e dizer. Parou de chover ontem aqui em Gramado, no fim da tarde. Estou num hotel que tem um elevador panorâmico com vista para o vale. Ao descer para o café, não deu para ver nada, porque a cerração é forte, mas o sol está começando a abrir. Espero que seja um belo dia. Tivemos uma bela noite de competição. Ela começou com ‘A Próxima Estação’, documentário de Fernando Pino Solanas sobre o que ele chama de ‘ferrocídio’, o desmantelamento da rede férrea argentina por sucessivos governos, sejam democráticos, como o de Frondizi, ou militares. A privatização, em época mais recente, levou ao aviltamento do serviço e Solanas usa o fato para discutir o modelo econômico neoliberal, que usa o álibi do mercado regulador para encobrir todo tuipo de jogo de interesse, Naturalmente que ‘La Próxima Estación’ é um filme que se pode destestar e descartar de cara como tendencioso, unilateral. Solanas não ouve o ‘outro lado’, como se diz, batendo na mersma tecla com uma veemência à Michael Moore. O mundo ficou pior, os serviços piores, porque nesse admirável mundo novo do ‘mercado’, você só pode escolhewr aquilo que está programado ou interessa ao poder econômico. A rede férrea argentina foi desmantelada porque, politicamente, seus dirigentes sindicais, atrelados ao justicialismo, representavam o tipo de consciência que não interessava ao sistema. Isso é um ponto. O outro, talvez mais importante, é que o transporte público, o trem, foi substituído pelo carro e o incentivo ao ‘coche’ se traduziu em investimentos na malha viária, não mais na térrea, segundo um acordo que – Solanas mostra – teria, ou foio, estabelecido sob o democrata Frondizi, nos anos da Aliança para o Progresso de John Kennedy. ‘La Próxima Estación’ vai ser acusado de saudosista, anacrônico, mais um lamento de um sujeito que olha para trás e não para a frente. De minha parte, achei muito inteligente a discussão que Solanas propõe entre bens públicos e privados e que, se não me engano, é a mesma atualmente em curso no Brasil, em todo esse episódio sinistro envolvendo o ex-presidente Sarney. O melhor, para mim, é que Solanas construiu um documentário tão forte, com personagens tão poderosos, que eu via ‘A Próxima Estação’ quase como uma ficção. Muito bom! Na sequência, tivemos ‘Canção de Baal’, de Helena Ignez, que eu já havia visto no Festival do Rio, no ano passado. ‘Baal’ foi exibido na mesma noite em que Pedro Cardoso teve aquele desatino, condenando a nudez no cinema brasileiro, num acesso moralista tão despropositado que o assunto logo em seguida morreu e foi enterrado. A pouca repercussão que teve deve-se, naturalmente, à concorrência, que cria factóides para sustentar uma imagem de isenção e independência que, logicamente, não corresponde à realidade. Havia deixando Pedro Cardoso no meio de seu discurso patétioco porque queria ver ‘Baal’, em sua última exibição no festival. O filme de Helena Ignez tem nu frontal masculino e feminino e Siomone Spoladore, benza Deus!, é uma deusa. Ela se entrega, fica nua, você pode admirar toda aquela beleza, mas sóp uma mente muito perversa poderia acusar a atriz e a diretora de safadeza. Enfim, ‘Canção de Baal’ havia me desconcertado, mas eu não sabia direito se havia gostado. Ontem, gostei. ‘Baal’ é livremente adaptado da peça de Bertolt Brecht sobre um músico e poeta mulherengo (e devasso). Seu canto de guerra é – ‘Meu nome é Baal, faço poesia com meu p…’ O texto foi escrito em 1918, embora tenha tido sucessivas revisões por Brecht até 1954. Naquele mesmo ano (1919), um eclipse no Ceará permitiu a comprovação científica da teoria da relatividade de Albert Einstein e isso permite a Helena Ignez um vôo poético misturando Brecht, Enstein e o formato filme musical. A noite, ontem, foi marcada pela transgressão no 37º Festival de Gramado. Política, sexual, tudo a mesma coisa. Gostei!

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