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Cultura » Meu favorito, entre os livros que escrevi?

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Luiz Carlos Merten

19 Setembro 2007 | 16h04

Fábio Negro me pergunta qual, entre todos os livros que escrevi, o meu preferido. Sei lá, nunca pensei nisso, porque no fundo cada um corresponde a uma fase da minha vida. Já contei que aquela editora de Porto Alegre, a Artes & Ofícios, me havia encomendado um livro para comemorar o centenário do cinema. O ano era 1995, havia visto Pulp Fiction e escrevi Um Zapping de Lumière a Tarantino, vendo no diretor o que mais me havia impactado naquela época. Passou-se o tempo, a editora quis relançar o livro, mas eu não concordei. Andava decepcionado com o Tarantino e queria mudar o último capítulo. Como achava absurdo simplesmente substituir o Tarantino pelo Kiarostami, por exemplo, e a editora teria, de qualquer maneira, de reformatar o livro, aproveitei que andava fissurado por outro filme – Moulin Ruge, de Baz Luhrmann – e mudei o enfoque, olhando o cinema agora entre a realidade e o artifício, duas vertentes que remontam às suas origens, com os irmãos Lumière e Méliès. Reescrevi, rapidamente, todo o livro, como gosto de fazer e embora alguém já tenha me dito aqui no blog que tem ‘erros horríveis’, penso que é o meu livro favorito. Estuda autores que admiro e costumam ser pouco valorizados – Robert Aldrich – e avança na discussão da teoria, até mesmo com uma provocação. E se a cena do assassinato de Marion Crane no chuveiro de Psicose – e não a da escadaria de Odessa em O Encouraçado Potemkin –for a mais influente do cinema? Eisenstein, em 1925, estava inventando uma linguagem, teorizando sobre a montagem. Ele via, vocês sabem, o cinema como a mais revolucionária das artes e defendia que cabia ao diretor ordenar as imagens no inconsciente do espectador, justamente para buscar esse efeito revolucionário. Isso, o tema, tudo fez a aura do filme. Hitchcock estava adaptando um pulp, consideravelmente menos ‘nobre’, trabalhou usando técnicas de TV, mas não creio que sua reformulação da montagem – ele é cria de Eisenstein, sem dúvida – tenha sido menos influente. Toda a linguagem da MTV (e do clipe), que, somada à (r)evolução tecnológica, mudou o cinema das últimas décadas, passa por aquela cena que dura menos de um minuto (exatos 43 segundos, com posições de câmera que duram menos de um segundo na tela e muito subliminarmente são registradas pelo inconsciente). Aproveitando a carona, alguém também me pediu que comentasse meu ‘estilo’ – coisa mais pretensiosa – na atualidade e quando escrevi os textos contidos no livro editado pela Prefeitura de Porto Alegre (A Paixão do Cinema). Engraçado – dei uma olhada no livro, reli alguns textos e era como se não me reconhecesse, mas minhas idéias continuam todas lá (e poucas eu teria vontade de contestar). Não sei exatamente o que mudou, mas mudou, claro. Mesmo com todo o espaço que tenho no Estado, os textos eram maiores, mais analíticos e também mais marcados por uma ostensiva preocupação política (diria militante…) porque, afinal, o País vivia sob uma ditadura e era importante não ser conivente. Mas não sou eu que devo comentar, e sim vocês. Espero não estar abrindo um flanco muito grande para ficar recebendo pedradas.

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