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Cultura » Meu elefantinho favorito

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Luiz Carlos Merten

15 Junho 2010 | 13h00

Cheguei ontem à noite em casa e acrescentei aquele post rapidamente, só para dar notícias. Gostei tanto de ‘Toy Story 3’ e até ‘Karate Kid’ não me pareceu tão ruim, embora, a rigor, o filme antigo, exceto pelo fato de ter virado cult, já não valesse grande coisa, o que torna a comparação mais fácil. Existem duas ou três ideias interessantes no remake e gostei especialmente da primeira cena em que Jared Smith descobre o valor dos ensinamentos de Jackie Chan. Quando ele começa a reagir instintivamente, achei a cena eletrizante, muito bem montada, mas deixa pra lá. Depois do post de ontem, vi que havia chegado um envelope da Disney para mim. Abri e era o DVD de ‘Dumbo’. Não resisti, e ainda encarei o desenho de 1941, que está sendo lançado numa edição de colecionador porque, afinal, vão ver 70 anos do elefantinho orelhudo (e voador). ‘Dumbo’ é curto, tem apenas 64 minutos. Vi-o com imenso carinho. Já disse que não subestimo as animações de Disney e, menos ainda, o valor dessas fantasias como representações do homem no mundo. ‘Procurando Nemo’ é um dos grandes filmes sobre ‘paternidade’ do cinema e eu sinto por quem não percebe isso. Aliás, amo a cena de ‘Jogo de Cena’ em que a entrevistada provoca Eduardo Coutinho, diz que chorou em ‘Nemo’ e, diante do ceticismo dele, o acusa de ser ‘meio’ comunista, contra Disney. É um dos grandes momentos do filme e sou totalmente solidário com ela, não pela ‘comunistização’ de Coutinho (existe a palavra?), mas pela defesa apaixonada do peixinho que atravessa o oceano em busca do filho. Enfim, voltemos a ‘Dumbo’. Até onde sei, da história da Disney, o filme foi feito rapidamente, com base num livro recém publicado – o que era raro no estúdio –, com o objetivo declarado de fazer bilheteria e compensar o velho Walt do rombo que causara ‘Fantasia’ no ano anterior. ‘Dumbo’ foi um grande sucesso e tenho para mim que, até hoje, é uma das animações mais encantadoras da Disney. O velho Walt sempre foi atraído por personagens desajustados e incompreendidos em seu meio social, ou ‘natural’. Dumbo ganha o apelido e é ridicularizado por ser muito pequeno e ter as orelhas enormes. Sua mãe, tentando defendê-lo, é enjaulada, numa cena de ‘terror’ que antecede o sacrífício de outra mãe – a de ‘Bambi’, que morre numa sequência considerada ‘traumática’ para crianças pequenas (e que hoje talvez fosse atenuada ou até eliminada, em nome do politicamente correto). ‘Dumbo’ tem uma galeria notável de ‘coadjuvantes’ – estou pensando nos corvos e no ratinho Timothy, que investe na auto estima de Dumbo e o incentiva a usar as orelhonas para voar. Como em ‘O Patinho Feio’ ou ‘A Bela e a Fera’, Dumbo, de rejeitado, vira astro do circo, sua  mãe é reabilitada e a ‘storytelling’, a narração de tudo isso, é muito bem feita, muito bem montada, segundo procedimentos que só a animação tradicional permite. Gosto particularmente da cena de dança dos ‘Pink Elephants’, que é uma obra-prima. Aliás, dei uma pausa e fui ver o que diz Leonard Maltin de ‘Dumbo’ em seu guia. Alma gêmea – ele considera ‘Dumbo’ uma dos desenhos mais charmosos de Disney, diz que não tem um momento ‘dull’ (idiota) e acrescenta que a cena dos elefantes cor de rosa ganha um tratamento especial. Assino embaixo. Só mais uma coisa. Já havia colocado o título acima e só agora me dou conta de que talvez não seja 100% exato. Afinal, existe o ‘elefantinho’ de Howard Hawks, cujo passo virou hit de Henry Mancini e anima um dos grandes filmes de aventuras do cinema – e o maior sobre caçadas na África, com certeza -, ‘Hatari!’.