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Luiz Carlos Merten

14 Abril 2008 | 16h58

Jefferson Barros foi um grande crítico gaúcho, peretencente a uma geração (nos anos 60) que também produziu Enéas de Souza e José Onofre. Sorry, gente, vocês podem dizer que é bairrismo de natural do Rio Grande – aquele outro país, como diz minha colega Regina Cavalcanti –, mas nunca houve na história do Brasil um pensamento cinematográfico como o daqueles caras. Jefferson Barros morreu, precocemente, há alguns anos. Se vivo, ele já teria comprado o DVD de ‘A Condessa Descalça’, lançado pela Magicline (ou Classicline, sei lá). Jefferson era louco por Joseph L. Mankiewicz, a quem chamava de Stendhal do cinema. Glauber dizia que era o Visconti, mas deve ter lido só as orelhas dos livros. Jefferson tinha razão. A simulação, o jogo, a ironia cruel e a manipulação sempre foram os instrumentos ‘stendhalianos’ que Mankiewicz usou para construir as relações dramáticas de seus filmes. ‘A vida cria roteiros’, dizia o grande diretor, duas vezes vencedor dos Oscars de direção e roteiro, por ‘Quem É o Infiel?’ e ‘A Malvada’ (All about Eve), o que significa que ele ganhou quatro prêmios da Academia de Hollywood. Até por ser fascinado pela capacidade humana de criar truques de sobrevivência e de destruição – este início de post tem muito do Jefferson, num texto de cuja existência me lembrava, no arquivo do ‘Estadão’ –, Mankiewicz privilegiava, em seus filmes, a mulher. Mesmo quando ela não aparecia – como em em ‘Jogo Mortal’ (Sleuth), de 1972, refilmado com Jude Law e Michael Caine –, a mulher, ou o ‘feminino’, fornecia o tema do grande diretor. Jefferson era louco por Maria Vargas, aliás condessa Torlato-Favrini, aliás, Ava Gardner em ‘A Condessa Descalça’. Sua história é contada, em flash-back, por um diretor de cinema, interpretado por Humphrey Bogart. Maria dança nas ruas. Vira uma estrela, mas seu sonho de Cinderela exige a figura do príncipe, que surge na figura do aristocrata. O conde interpretado por Rossano Brazzi é impotente. Sentiram a tragédia de Maria Vargas? O filme começa no cemitério, sob a chuva. Bogart olha a estátua de Maria. Ela está descalça, o que, para os hindus, significa estar morta. Em ‘Cleópatra’, outro sonho de Cinderela, Júlio César (Rex Harrison) diante da estátua da rainha do Nilo (Elizabeth Taylor), pergunta-se justamente por que as estátuas não têm olhos? A pergunta de César não tem resposta, mas o espectador sabe que uma estátua não tem vida. No limite, ‘A Condessa’ versa sobre a morte. Estar descalça, flash-back, tudo aponta nesta direção. A grande pergunta de Mankiewicz é – por que o símbolo da vida, a fêmea (e Ava Gardner era a mais esplêndida das fêmeas) morre? Toda a narrativa evolui para uma espécie de diagnóstico – por causa da impotência dos homens. Só que não é uma resposta, ou equação, simples. Maria Vargas é uma estrela que faz o movimento inverso. Ela gira em torno do príncipe encantado, que é um corpo morto. Toda a mise-en-scène de Mankiewicz se constrói em torno deste princípio, em ‘A Condessa Descalça’. Como sempre, no cinema do grande Joe, toda tragédia também passa pela palavra. É um filme de diálogos muito ricos, que revelam mesmo quando parecem encobrir alguma coisa. Preciso rever ‘A Condessa’. Pelo Jefferson – e por mim.