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Luiz Carlos Merten

17 Julho 2007 | 17h22

Fui ler os comentários de vocês sobre o post de ontem e, realmente, vi que não é paranóia minha (não que eu seja paranóico). Onde estou eu? Ninguém me acha, nem eu. Feita a ressalva e, na expectativa de que em algum momento a gente se reencontre, quero dizer que tenho andado mergulhado, nos últimos dias, no universo dos grandes sucessos de público da retomada do cinema brasileiro, pós-Carlota Joaquina. Tenho reencontrado – por telefonre, e-mail ou pessoalmente – gente a quem admiro e respeito. Estou louco para repassar para vocês estes papos que têm sido muito ricos, para mim. Amanhã, a capa do Caderno 2 é minha visita ao set de Era Uma Vez…, o novo filme de Breno Silveira, que ele acabou de rodar no Rio. Fui visitá-lo no Arpoadorzinho, onde ele filmava uma cena, à noite, e no dia seguinte, no morro do Cantagalo, embora tenha minhas dúvidas se fosse mesmo o Cantagalo. Há ali uma confluência de três morros, Pavão, Pavãozinho e Cantagalo, tão ligados que fica difícil, pelo menos para um ‘estrangeiro’, dizer onde começa um e termina o outro. Liguei hoje de manhã para o Breno para finalizar a reportagem. Achei-o deprimido. Breno foi esquecido no edital de finalização da Petrobrás, anunciado no fim da semana passada. Você pode até pensar – Pô, mas o cara fez o maior sucesso de público da retomada, 2 Filhos de Francisco, integra o colegiado da Conspiração, que é uma grande empresa, deve estar nadando em ouro. Não precisa da verba da Petrobrás, que é melhor indo para os primos pobres do cinema brasileiro. Não é verdade. Breno fez Francisco sem ajuda das estatais e está fazendo Era Uma Vez… também sem apoio de nenhuma delas. A Columbia colocou dinheiro para a filmagem, mas ainda falta para a finalização. O cara faz o maior sucesso de público da retomada e, em vez de ser incensado, é penalizado por isso. Francisco, para mim, não é só um êxito comercial. É também um êxito artístico e um grande filme brasileiro. Num momento em que o cinema brasileiro acumula títulos e perde mercado, acho que um diretor como o Breno não pode, nem deve, ser desestimulado. Sei que o assunto é complicado. Tiraria quem da lista de aprovados? Pois a verdade é esta – para entrar alguém, outro precisa sair. Só que eu sei, por experiência própria, pois já fiz parte de comissões, que muitas vezes existe preconceito. Ah, é da Conspiração… Já ouvi até gente dizendo, cinicamente, que eles (Breno, Andrucha, Cláudio Torres, Artur Fontes etc) deveriam uisar dinheiro da publicidade para pagar seu cinema. até ontem sei, é isso que já vem ocorrendo. A divisão de publicidade da Conspiração sustenta a de cinema porque esta última, nem com Francisco, consegue ser lucrativa. Breno deve estar sob grande pressão, dele próprio. Seu novo filme dificilmente vai repetir o fenômeno Francisco, com 5.5 milhões de espectadores, mas essa transposição de Romeu e Julieta para o morro me pareceu muito interessante. Senti o Breno desestimulado hoje de manhã. Ao mesmo tempo que ele se sente desprestigiado – não adiantou nada ter feito Francisco -, tem, muita gente, coleguinhas da imprensa, querendo usá-lo para colocar fogo na fogueira e desencadear uma polêmica sobre (e contra) as leis de patrocínio. Breno está numa retranca. Não quer ser usado, e menos ainda contra colegas cineastas. É um cara ético. Tenho o maior respeito por ele. Coloquei este título no blog porque é assim que gosto de me sentir em relação a ele. E, no fundo, tenho certeza de que Breno vai cavar dinheiro para finalizar Era Uma Vez…, como cavou para finalizar Francisco (se bem que lá tivesse Zezé e Luciano).

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