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Meu adeus a Ruby Dee

Luiz Carlos Merten

12 Junho 2014 | 15h31

Estava saindo para o Anhangabaú quando meu colega Guilherme Sobota me perguntou ‘Ruby Dee, é isso?’ O que houve com ela? Morreu. Não posso deixar para depois. Ruby Dee era o nome artístico de Ruby Ann Wallace. Ela foi atriz, poeta, dramaturga, roteirista, jornalista, ativista. Com o segundo marido, Ossie Davis, com quem foi casada desde 1948 até a morte dele, em 2005, Ruby fez dos direitos civis a sua cruzada. Era linda, delicada, possuía um registro intimista/interiorizado de interpretação. Para mim, ela era, sempre foi, a Jeanne Moreau negra. Em 1961, foi uma das protagonistas, com Sidney Poitier, Claudia McNeil e Louis Gosset, de O Sol Tornará a Brilhar. O filme baseava-se numa peça (de Lorraine Hensburry) e o diretor Daniel Petrie não era muito bom, mas a história daquela família negra e pobre, lutando por melhores condições – ou para encontrar um sentido para tanta discriminação e sofrimento -, me assombrou e assombra até hoje. Vi depois Laços Humanos/A Tree Grows in Brooklyn, que Elia Kazan realizou em 1945, que era um pouco a mesma história, mas numa família de brancos. Pelo simples fato de serem pobres, a dificuldade era parecida, senão igual. São dois filmes indissociáveis na minha cabeça. Em 1991, o casal Ruby/Ossie apareceu em Febre da Selva, de Spike Lee, e em 2007 Ridley Scott fez dela a matriarca de American Gângster. Ruby Dee foi indicada para o Oscar de coadjuvante, mas não ganhou o prêmio. Fiquei indignado. Ela merecia, não só pelo papel., mas por sua carreira. Ruby ganhou muitos outros prêmios – Grammy, Emmy, Obie, Drama Desk, recebeu o Life Achievement Award do Actors Guild e a National Medal of Arts dos EUA. Tinha 91 anos. Em 1977, ela gravou What If I Am a Woman?, dando voz a lamentos de mulheres negras através da poesia e da literatura. Foi uma grande dama.