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Meu adeus a Cláudio Marzo

Luiz Carlos Merten

22 Março 2015 | 17h53

Estou há dias querendo fazer um post sobre um belo filme que vi quando viajava para Nova York, a bordo de um avião da American, mas Pride vai ter de esperar mais um pouco. Estou na redação do Estado – é meu plantão – e morreu nessa manhã Claudio Marzo, aos 74 anos. Ele estava internado desde o começo do mês numa clínica do Rio. Teve uma pneumonia que foi se complicando. Muita gente vai lembrar o Cláudio Marzo das novelas – Compro Essa Mulher, O Sheik de Agadir, Irmãos Coragem, O Bofe,  Saramandaia, Plumas & Paetês, Fera Ferida, Pantanal, A Indomada etc. Eu prefiro lembrar o Cláudio Marzo ator de cinema, que fez filmes indeléveis no meu imaginário. Copacabana Me Engana, O Capitão Bandeira contra o Doutor Moura Brasil, Os Condenados, Se Segura Malandro, A Dama do Lotação, A Lira do Delírio, O Segredo da Múmia, Pra Frente Brasil, Avaeté – A Semente da Vingança, Perfume de Gardênia, O Homem Nu (a versão de Hugo Carvana), O Xangô de Baker Street e o maior de todos – Nunca Fomos tão Felizes, de Murilo Salles, de 1984. Mais que carinho, tenho verdadeira paixão por esse filme que Murilo adaptou livremente do conto Alguma Coisa, Urgentemente, de João Gilberto Noll. O encontro de pai e filho num apartamento de Copacabana, com vista para a Av. Atlântica. Os anos de chumbo da ditadura estavam terminando, mas ali, naquele apartamento, o pai, ex-preso político que vive clandestino, e o filho do qual estava afastado há anos tentam um difícil recomeço,  ou será uma despedida? Murilo Salles foi fotógrafo, grande. Só de evocar Nunca Fomos tão Felizes lembro-me do apartamento despido, sem móveis e dos suntuosos, ritualísticos movimentos da câmera de João Tadeu Ribeiro. Perguntei uma vez a Murilo se Joseph Losey havia sido uma referência para ele, e Murilo me disse que não, que Losey era um autor que conhecia precariamente. Para mim tem tudo a ver. Elizabeth Taylor e Mia Farrow no apartamento de Cerimônia Secreta, Elizabeth Taylor e Richard Burton na casa com vista para o mar de Boom!/O Homem Que Veio de Longe. A mesma suntuosidade cênica. Pai e filho, Cláudio Marzo e Roberto Bataglin. Longos silêncios, um aparelho de TV e uma guitarra. Quem é esse homem, esse estranho? Do convívio frustante, o garoto retira um amadurecimento precoce. Questiona a própria identidade. Só por esse filme, Cláudio Marzo já estaria no meu panteão de figuras míticas do cinema brasileiro, mas ele fez o Capitão Bandeira de Antônio Calmon, foi o próprio Capitão Bandeira, em 1971. No Brasil pós AI-5, Bandeira, que tem tudo para ser feliz, é perseguido pelo sinistro Dr. Moura Brasil. Cláudio Marzo, Norma Bengell, Dina Sfat, Hugo Carvana, Suzana de Morais. Além do diretor, Cláudio Marzo era o único remanescente desse grupo. Todos já partiram, mas o filme segue vivo na minha lembrança. Um raro filme brasileiro em Cinemascope, fotografia de Affonso Beato. Nunca falei com Claudio Marzo, nunca lhe disse quanto lhe devo. Que esse post seja a minha carta nunca enviada para um ator que, como outros de sua geração, mas não muitos, foi mítico para mim.