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Cultura » Meu adeus a Cacoyannis

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Luiz Carlos Merten

25 Julho 2011 | 17h17

Morreu Michael Cacoyannis. Não sei o que o nome do cineasta grego significa para vocês, mas ele tem estado em evidência para mim, nos últimos tempos. Pode ser que me engane, mas creio que Cacoyannis nada mais fez, para cinema, depois da sua versão de ‘O Jardim das Cerejeiras’, de Chekhov, com Charlotte Rampling e Alan Bates. Nos anos 1950, quando ele surgiu, fazia um neo-realismo à grega, em filmes como ‘Stella’ e ‘A Mulher de Negro’. Nos 60 e 70, com ‘Electra, a Vingadora’, ‘As Troianas’ e ‘Ifigênia’, deu nova dimensão ao conceito de tragédia no cinema. Seu filme mais popular foi ‘Zorba, o Grego’, com a poderosa interpretação de Anthony Quinn e a trilha de Mikis Theodorakis. Nunca vou esquecer o som da cena em que Alan Bates, empurrado por Zorba/Quinn, faz a corte à viúva Irene Papas. Ela está estendendo os lençois e os dois fazem uma coreografia meio que se escondendo entre os lençois que ondulam ao vento, antecipando o sexo. Disse que Cacoyannis tem estado em pauta para mim, nos últimos tempos. Explico – Gabriel Villela trabalha atualmente na criação dos figurinos de sua tragédia grega, ‘Hécuba’. Ela é uma das personagens de ‘As Mulheres de Troia’ e, por conta disso, tenho conversado com ele sobre Cacoyannis. Das 1001 histórias que sempre ouvi sobre a controvertida vitória de Anselmo Duarte em Cannes, 1962, havia uma segundo a qual o júri não conseguia se decidir entre os grandes filmes da competição – o Antonioni de ‘O Eclipse’, o Robert Bresson de ‘O Processo de Joana d’Arc’ etc – e isso favoreceu ‘O Pagador de Promessas’. Mas existem outras correntes segundo as quais o júri, na verdade, estaria empacado entre Cacoyannis e sua ‘Electra’ e o Pietro Germi de ‘Divórcio à Italiana’. Lembro-me perfeitamente de quando assisti a ‘Electra’, em Porto, no Cine Atlas, que nem existe mais. As cenas de Agamenon voltando da guerra eram o mais puro Eisenstein, ‘Alexandre Nevski’, com a trilha de Theodorakis e a fotografia de Walter Lassaly substituindo Prokofiev e Tissé. Irene Papas é sublime como a vingativa Electra, cuspindo as palavras de Sófocles com sua voz flagelada – como Glauce Rocha fazia na versão brasileira da peça, acho que em 1964 ou 65, por aí. Mas a mais bela tragédia de Cacoyannis é ‘Ifigênia’, baseada na obra que Eurípedes não concluiu. De novo, a armação do combate – as naves gregas paradas em Áulis, devido à ausência de vento, a proposta de Agamenon de sacrificar a própria filha aos deuses e a obsessão de vingança da mãe, novamente a poderosa Irene Papas, agora como Clitemnestra. E começa o embate verbal, o logos, que Cacoyannis, o grego, sabia levar tão bem. Ele representou o cinema grego por um bom tempo, antes de diminuir o ímpeto no cinema e abrir espaço para que Theo Angelopoulos crescesse na parada. Cacoyannis cometeu alguns enganos mortais – a cor estetizante e artificial de ‘O Dia em Que os Peixes Saíram d’Água’ -, mas o preto e branco de seus melhores filmes (Lassaly, sempre Lassaly) vai fazer sempre parte das minhas experiências inesquecíveis no cinema. Cacoyannis morreu aos 89 anos (nasceu em 1922). Ele dirigiu – e revelou -grandes atores, mas sua associação definitiva foi com Irene Papas. Grande Irene. Além de seus papeis nos filmes dele, nunca a esquecerei também em ‘Condenado pela Máfia’, de Elio Petri, com Gian-Maria Volontè.