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Luiz Carlos Merten

07 Julho 2008 | 13h48

Leandro me informa que acharam uma outra versão de ‘Metrópolis’, do Fritz Lang, na Argentina, e me pergunta se quero rever o filme? Até por obrigação profissional, claro que verei a tal versão, quando ou se circular e for comprovado que se trata mesmo de outra versão alternativa à que a gente conhece. Mas, cara, até duvido que seja verdade. Poucos filmes ‘antigos’ foram tão mapeados quanto ‘Metrópolis’, principalmente depois que Giorgio Moroder comprou os direitos para acrescentar sua trilha roqueira às imagens expressionistas de Lang, em 1985. O filme, feito em 1926, ia fazer 60 anos e o Morodor, compositor – premiado com o Oscar – de ‘O Gigolô Americano’ e ‘Scarface’, antecipou-se, baseado na crença de que era preciso ajustar a fantasia futurista de Lang ao gosto das novas platéias pós ‘Star Wars’. Para isso, o que fez ele? Acrescentou cor e música eletrônica ao que os cinéfilos já conheciam. O filme foi colorizado e inundado pela música eletrônica (ainda não havia o conceito de ‘techno’). Ficou meio estranho e não resolveu o que, para mim, é o problema principal. Gosto muito do Lang, mas não sou o maior fã de ‘Metrópolis’, embora considere sua arquitetura impressionante. Lang concebeu sua cidade do futuro baseado no impacto que tiveram sobre ele os arranha-céus de Nova York, quando visitou a cidade pela primeira vez. Sua antecipação visual da cidade do futuro marcou época no cinema e muitos filmes, incluindo ‘Blade Runner’, do Ridley Scott, tomaram ‘Metrópolis’ como referência. Mas a visão ‘social’ futurista de Lang, a sua idéia de resolver os problemas da oposição do capital e do trabalho por meio do coração, é de uma ingenuidade atroz, o que o próprio diretor percebeu, porque seus filmes expressionistas alemães (‘M’ e ‘O Testamento do Dr. Mabuse’) e, depois, os hollywoodianos ficaram cada vez mais complexos e ambivalentes como exploração da mente humana e da própria dinâmica da sociedade. ‘Metrópolis’ virou uma peça de museu que o Morodor espanou, tirando o pó, mas tenho minhas dúvidas se suas estripulias serviram a Lang (ou ao seu ego)? Mas, enfim, fui aos ‘implacáveis’ (os arquivos do Estado) e encontrei uma entrevista com Moroder, feita na época. Ele define a história do filme como um romance policial e diz que, quando começou a trabalhar, acreditava que tinha a cópia oficial do governo alemão. Três ou quatro meses depois, percebeu que a versão era ‘infiel’ (espúria?) e empreendeu uma investigação que definiu como ‘cheia de aventuras’. Procurando cenas ausentes, descobriu 12 minutos numa cópia australiana, três segundos com um colecionador de Los Angeles. Em San Diego, descobriu uma versão muito boa sem intertítulos, mas que, segundo ele, estava perfeitamente ‘subintitulada’. Será que, depois de toda essa busca, ainda existe ‘outra’ versão? O mais interessante – agora já sou eu delirando – é que, em 1986, também foram encontrados em São Paulo dois filmes de Lang que eram dados como perdidos, ‘Corações em Luta’ e ‘Depois da Tempestade’, ambos anteriores a ‘Metrópolis’, pois datam de 1921/22. O segundo, até onde sei, estava incompleto. A pergunta que não quer calar – como e por que estes filmes, mais o ‘Metrópolis’, vieram parar na América do Sul? Será que tem a ver com a fuga de nazistas – algum cinéfilo, talvez -, após a 2ª Guerra?