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Mestres americanos

Luiz Carlos Merten

11 Outubro 2006 | 20h22

Entre os grandes filmes que você poderá ver na 30ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo, reserve desde logo na sua agenda um espaço para American Masters John Ford/John Wayne: The Filmmaker and the Legend, de Sam Pollard. Reunindo depoimentos e cenas de filmes, o diretor conta a história dessa parceria que rendeu obras-primas do cinema, desde aquele marco na história do western que foi No Tempo das Diligências até obras viscerais como Rastros de Ódio e O Homem Que Matou o Facínora, quando Ford anunciou a decadência do gênero que ajudara a consagrar. E não foi só no western que brilharam – Depois do Vendaval ostenta, como poucos filmes, a sua aura de clássico. Você vai ter uma surpresa vendo o filme de Pollard, que conta a história secreta dessa amizade. O grande Ford era um tirano que exigia a submissão de Wayne e o espezinhava. Quando o astro, para se afirmar, resolveu dirigir um épico, Ford, sem a menor cerimônia, chegou ao set de Álamo e começou a comandar os trabalhos. Naturalmente que os filmes que fizeram juntos não ficam menores por isso, mas é, no mínimo, curioso conhecer esse outro lado da história oficial. Assim, como também é curioso assistir e, se possível, comprar o DVD de O Céu Mandou Alguém, parceria de Ford e Wayne de 1949, resgatada pela Warner. Intitulado The Three Godfathers (Os Três Padrinhos) no original, o filme é uma transposição para o western da história dos Três Reis Magos da Bíblia. John Wayne lidera o trio de fugitivos que, no deserto, encontra mulher que está morrendo, após dar à luz. Eles prometem que vão levar o bebê à família dela e o fazem, mesmo com o risco de ser presos. Se é verdade que a obra de Ford, o Homero do Oeste, mostra como se constrói uma civilização, seu cinema celebra um tipo de humanidade e valor ético que fez a grandeza da chamada América. É tudo aquilo que George W. Bush e seus asseclas não professam hoje. O filme é uma fábula, digamos, sentimental e até uma alegoria cristã que o diretor dedicou a Harry Carey, ‘estrela brilhante do céu dos primeiros westerns’. Fosse outro o diretor e seria, talvez, piegas, quem sabe insuportável. Com Ford, vira um belíssimo (ainda hoje) filme. Veja-o e depois assista ao documentário de Sam Pollard na Mostra. Você vai ver a parceria de Ford e Wayne com outros olhos.