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Mesmo estando só…

Luiz Carlos Merten

13 Maio 2009 | 07h34

CANNES – Se eu tivesse conseguido postá-lo ontem, a procedência deste texto seria outra, Paris. A cidade estava mais para outono do que primavera, na manhã de terça-feira. Havia uma chuva fina, Paris da garoa, como São Paulo já foi. Pode ser piegas (tolo?) confessar isso, mas Paris sempre foi uma cidade mítica no meu imaginário. Não venho de uma família rica (pelo contrário…) nem intelectual, mas quando era garoto, com, sei lá, 11-12 anos, estudava francês na escola (o Júlio de Castilhos, em Porto Alegre). Naquela época, Paris ocupava, no inconsciente coletivo, o lugar que hoje cabe a Nova York, ou São Francisco, ou Los Angeles. Eram outros tempos e a cultura francesa era muito forte no País, não apenas o cinema, mas a música. Criei-me ouvindo, na Rádio Guaíba, Henri Salvador, Charles Trenet, Edith Piaf. Tão obrigatórios quanto os cinejornais do Canal 100 eram as atualidades francesas e a gente acompanhava o Tour de France. Não me lembro agora o nome do ciclista que era o super-campeão, o imbatível, mas para quem já vivia no cinema, como eu, era um personagem que fazia parte do meu cotidiano, como Pelé ou Garrincha. Até hoje, andando por Paris, ecoa nos meus ouvidos a versão de uma música cantada acho que por Ivon Cury – ‘Mesmo estando só, eu me sinto feliz/ Cantando a canção que embala Paris…’ Minha primeira paixão platônica, que eu me lembre, foi uma professora de francês, chamada Maria José. Ela era jovem e linda, e um dia despediu-se da turma dizendo que vinha para a França. Para mim, foi um choque. Não conhecia ninguém, próximo de mim, que viesse para aquela terra de sonho. Andei hoje sob a garoa parisiense lembrando-me de tudo isso. Entrei na Gibert Jeune, aliás, na Gibert Joseph e tenho de confessar que foi um choque. Já citei tantas vezes essa rede de livrarias no blog e só hoje dei-me conta – ah, a semiologia… – de que é ‘Gibert’ e não ‘Gilbert’. Enfim, nesses últimos dias tenho folheado muito um livro que ainda não comprei (para não carregar peso), mas que espero levar para o Brasil, com certeza. Nossas editoras fariam um favor publicando esse volume. Antoine de Baecque é co-autor, com Serge Toubiana, da biografia de Truffauit que saiu no Brasil. Ele é autor, agora, de ‘Nouvelle Vague, Portrait d’Une Jeuinesse’. A nouvelle vague, o movimento de renovação do cinema francês por volta de 1960, é encarada como um retrato da juventude. É o enfoque do capítulo que dedico ao tema em meu livro ‘Cinema – Entre a Realidade e o Artifício’. Baecque lista os 20 filmes que ‘fizeram’ a nouvelle vague, começando por ‘Nas Garras do Vício’ (Le Beau Serge), de Claude Chabrol, que foi lançado em 1959 nos cinemas da França. O segundo filme que ele cita, ‘Moi, Um Noir’, de Jean Rouch, saiu em 1958. Afinal, comemora-se este anmo ou comemorou-se no ano passado o cinquentenário do movimento? Se tomarmos como referência a consagração no Festival de Cannes é neste ano. Baecque lembra que André Malraux era ministro da Cultura (de De Gaulle). Ele fez questão de assistir aos filmes selecionados para representar a França em 1959. ‘Os Incompreendidos’, de Truffaut, que ganhou o prêmio de direção; ‘Orfeu Negro’, de Marcel Camus, Palma de Ouro; e ‘Hiroshima, Meu Amor’, de Resnais, prêmio da crítica. Baecque lembra que Malraux, depois de ver os três, sentenciou – achou o filme de Truffaut bom, o de Camus não tão bom e o de Resnais, muito bom. Perfeito, esse Malraux. Baecque situa o fim da nouvelle vague em 1962, embora o último dos seus 20 filmes-faróis tenha estreado somente em 1963 nos cinemas franceses, ‘Trinta Anos Esta Noite’, de Malle. A nouvelle vague terminou entre acusações de seus diretores (autores?). Truffaut nunca perdoou Roger Vadim, que assumiu a direção de ‘La Bride sur le Cou’, com Brigitte Bardot, quando seu protegido Jeasn Aurel foi despedido da produção. Simultaneamente, Godard escreveu-lhe uma carta, dizendo que tinha ido visitar Claude Chabrol, no set de seu novo filme, e os dois ficaram num silêncio embaraçoso, sem ter o que se dizer. A nouvelle vague terminou assim, entre acusações e o sentimento amargo de seus integrantes de que eram estranhos, entre si. Não li atentamente o livro de Baecque. Li na vertical, mas acho que é um livro importante. Estou só dando uma palinha. Quem sabe ele não sai aí para a gente voltar a falar sobre o assunto?