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Luiz Carlos Merten

09 Dezembro 2011 | 15h57

LONDRES – Naoh consigo imaginar o ex-presidente Ronald Reagan, a ex-premier Margaret Thatcher e o papa Joaoh Paulo II se reunindo – onde? Na Casa Branca, em Downing Street ou na Capela Sistina? -, para conspirar, mas esse trio com certeza foi essencial na consolidacaoh da economia de mercado, ou do neoliberalismo, ou da globalizacaoh, que mudou a face do mundo nos ultimos 30 anos. Reagan era garoto-propaganda, Thatcher, a Dama de Ferro, segurou as pontas numa Inglaterra que reagia a suas aspiracoes politicas e ela foi dura, cruel. O papa? Assistiu aa derrocada do comunismo, e era o que queria. Ken Loach, Stephen Frears, Jim Sheridan, todos se uniram contra Thatcher e fizeram cinema para denunciar a brutalidade das transformacoes que ela operou na Inglaterra. Naoh sou economista, admito minha ignorancia, mas me pergunto por queh e para queh? Hoje mesmo, as TVs aqui da Inglaterra ficaram transmitidindo diretamente da Belgica as falas de Angela Merkel e Nicholas Sarkozy. O premier Cameron estah toda hora no ar explicando porque votou contra o bloco europeu. A Inglaterra se isola, Sarkozy e Merkel tentam salvar uma Europa aa beira do colapso. Cameron admite com todas as letras que naoh quer se arriscar a ser arrastado no turbilhaoh. Que merda, naoh? E agora ali na esquina de Oxford Circus nunca vi multidaoh maior. Uma tipica sexta-feira londrina, 5 da tarde e a noite jah se instalou. O mundo pode estar terminando, mas a festa continua. Saldos de inverno, tudo com 50% de desconto. Por que estou nesta viagem? Ah, sim. Em 6 de janeiro, estreia `The Iron Lady`, com Meryl Streep no papel de Margaret Thatcher. Vi o trailer e Meryl eh impressionante. A questaoh eh – quando Meryl naoh impressiona? Mas eu li uma entrevista dela hoje que me fascinou. Quando lhe propuseram fazer a Dama de Ferro, Meryl hesitou. Todos os seus amigos, e ela,  como gente de esquerda, eram contra o que Thatcher representava. Mas aih a diretora – Phyllida naoh-sei-o-queh, a mesma de `Mamma Mia`- lhe fez ver que Thatcher era uma outsider. Ela pode ter ajudado a mudar o mundo, foi uma das mulheres mais poderosas da historia, mas com certeza naoh era amada, naoh pelo povo, naoh por seu partido, naoh pelos capitalistas a quem serviu (em nome de queh, de sua consciencia?). Meryl diz que quis fazer o papel por isso, para entender essa grande solitaria. O filme eh sobre os tres ultimos dias de Thatcher, quando ela estava sofrendo de demencia e senilidade. O ponto de vista eh o dela. Naoh confiavel, achei interessante isso. Como essa `louca` viaja nas suas lembrancas e que lembrancas saoh essas? Meryl confessa que um detalhe aparentemente banal a deixou fora de esquadro. Nos 11 anos e pouco em que esteve em Downing Street, aa frente dos destinos da Inglaterra, Thatcher nunca teve um… cozinheiro. Ela, Meryl, desde `A Escolha de Sofia`, no comeco dos anos 1980, nunca mais cozinhou um jantar na vida, nem por lazer. Thatcher preparava todo dia o jantar para o marido, Denis. A morte dele foi um pouco o que a destruiu. Denis, no filme, eh Jim Broadbent. Odiava tanto Thatcher quando ela naoh cedia aa greve de fome dos caras do IRA. Era redator da editoria de Mundo, na epoca, em `Zero Hora`. Aquilo era uma agonia diaria. `Hunger`, de Steve McQueen, com o poderoso Michael Fassbender, eh sobre isso. E, agora, parece que o filme vai humaniza-la. A Dama de Ferro tinha um coracaoh. Estou ateh com medo de ver e gostar.