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Luiz Carlos Merten

17 Janeiro 2008 | 00h57

Cahiers du Cinéma e Studio reverenciam em janeiro… Quem? Jeanne Moreau, que está completando 60 anos de cinema e 80 de idade (no dia 23). Isto significa que Jeanne já tinha quase dez anos de carreira quando fez ‘Ascensor para o Cadafalso’, de Louis Malle, em 1957, no alvorecer da nouvelle vague. No ano seguinte, de novo com Malle, ela fez ‘Os Amantes’ e o filme encerrou a ligação íntima que os dois mantinham na época. Jeanne conta em seu livro autobiográfico como se deu a ruptura. Foi durante a filmagem de ‘Les Amants’, quando ela rodava a célebre cena de sexo oral com Jean-Marc Bory, que tanto escândalo fez no fim dos anos 50. jeanne e Malle chegaram a ser excomungados. A câmera permanece no rosto dela, Jean-Marc vai baixando até desaparecer do campo visual do espectador e o que a gente vê é o êxtase da personagem. Jeanne conta que viveu ali um dilema. Além de atriz, era mulher do diretor. Se fizesse a cena como era necessário, ela acreditava que poderia estar arriscando sua união, porque Malle, além de diretor, também era homem e seu orgulho poderia ficar ferido. Dito e feito. Ela fez a cena genialmente e ali mesmo, no set, Malle esfriou. Terminaram em seguida. A reportagem de Studio é repleta de frases de grandes diretores sobre Jeanne Moreau, que tive a felicidade de entrevistar em Berlim, acho que há dois anos – ou foram três? -, quando ela fez ‘Le Temps Qui Reste’, que é o meu François Ozon favorito. Almodóvar diz que se apaixonou por Jeanne Moreau ao ouvir sua voz em ‘Moderato Cantabile’, de Peter Brook. Buñuel agradecia a Malle por haver mostrado – em ‘Ascensor’ – como ela caminhava nos Champs Elysées. Buñuel dizia que uma parte importante do segredo de Jeanne vinha (vem) justamente da forma como ela se movimenta e foi isso que ele destacou ao dirigí-la, em ‘O Diário de Uma Camareira’. Truffaut também dizia uma coisa ótima – que Jeanne reúne todas as qualidades das mulheres e todas as qualidades dos homens, sem os inconvenientes de nenhum deles. E Orson Welles não deixava por menos – dizia que ela era (é) a melhor atriz do mundo. Welles dirigiu Jeanne pelo menos três vezes – estou citando de memória, sem consulta -, em ‘O Processo’, ‘Falstaff’ e ‘História Imortal’, que é um filme maravilhoso (e pouco conhecido) do autor de ‘Cidadão Kane’. Jeanne filmou com muitos outros grandes diretores – Losey (‘Eva’ é uma obra-prima), Antonioni, Angelopoulos, Démy, Duras, Fassbinder, Bertrand Blier, André Téchiné. Ela fez mais de uma centena de filmes, atuou em dezenas de peças, gravou cinco álbuns (estimulada pelo seu sucesso cantando ‘Tourbillon’ em ‘Jules et Jim’, de Truffaut), e dirigiu acho que dois filmes (‘Lumière’ e ‘L’Adolescente’). Como resumir tudo isto? Jeanne Moreau virou mito, um dos maiores do cinema, e não apenas da Europa.