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Luiz Carlos Merten

06 Junho 2011 | 18h46

É o que dá viver na estrada, pulando de galho em galho. Emendei Cannes com Paris, depois a estreia da nova parceria de Gabriel Villela/Dib Carneiro Neto, ‘A Crônica da Casa Assassinada’, no Rio, e o resultado de tudo isso é que me perdi na agenda de dois ciclos importantes que não sei se ainda consigo recuperar. A Sala Cinemateca exibia, espero que ainda exiba, uma programação dedicada a Jacques Demy. Lembro-me de que, em meados dos anos 1960, querendo refletir sobre a implosão da nouvelle vague, Jefferson Barros criticou duramente o lirismo mentiroso de ‘Os Guarda-Chuvas do Amor’. Meu amigo e mentor não entendeu nada. Talvez fosse preconceito de gaúcho macho com o gênero (en)cantado, mas não creio, porque Jefferson amava Vincente Minnelli. Mas ele não assimilou o que havia de duro e crítico sob a aparência pastosa da cantoeria de Michel Legrand e Demy. ‘Je vous attendrai toujours’, cantava e chorava Catherine Deneuve, quando Nino Castelnuovo partia para a guerra. Não esperava nada. O romantismo não sobrevivia e ela fazia um casamento de conveniência com um cara rico, o Michel de ‘Lola” (no Brasil, ‘Lola, a Flor Proibida’), para agradar à mãe. Marc Michel fazia Michel. Foi o ator de Jacques Becker em ‘Le Trou’, A Um Passo da Liberdade. Fez dois ou três filmes que garantem seu lugar na história, mas sumiu. De volta a Demy, amo a sua Lola, interpretada, com estudada afetação, por Anouk Aimée. O filme revisita gêneros tradicionais de Hollywood, mas revisita principalmente Homero – é a Odisseia vista pelo ângulo da mulher que espera. ‘Lola’, ‘La Baie des Anges’ (com Jeanne Moreau criando uma ´personagem à Bette Davis), ‘Os Guarda-Chuvas’, ‘Duas Garotas Românticas’, ‘Pele de Asno’. Há um culto a Demy. A oficiante é sua viúva, Agnès Varda, que contou a história do marido em ‘Jacquot de Nantes’, mas cada vez mais, em todo o mundo, o culto se amplia e os admiradores percebem que Demy, tão feminino, foi um grande do cinema, não só da sua geração (e da nouvelle vague). O outro ciclo, no CCBB, tenta redescobrir, para as novas gerações, uma das figuras icônicas do cinema brasileiro, Odete Lara. Não vou misturar alhos com bugalhos, Demy com Odete. Ela merece um post só dela. Daqui a pouco.