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Luiz Carlos Merten

06 Outubro 2006 | 14h04

Não quero ser chato nem impor a ninguém o que achei de Dália Negra, mas o noir do Brian De Palma me parece o trash mais metido a besta da história de Hollywood. Pode ser que exagere, mas tive vontade de rir em vários momentos, pelo ridículo involuntário das cenas. De Palma, cinéfilo de carteirinha, começou plagiando Hitchcock. Aqui, homenageia o noir. Antes não fosse tão cinéfilo. Poderia ter feito um filme denso e forte, porque a história da Dália Negra é impressionante. Não por acaso, perseguiu durante anos James Ellroy, cuja mãe também também foi assassinada. Curtis Hanson teria feito um filme melhor, ele que assinou o genial Los Angeles – Cidade Proibida, outra adaptação de Ellroy. O problema do De Palma é que ele é excessivamente estiloso. Xô, Dália Negra. A boa estréia de hoje é Do Luto à Luta, do meu ex-editor do Caderno 2, Evaldo Mocarzel. Evaldo fez o filme que gostaria de ter visto quando o médico lhe anunciou, após o parto, que sua filha era portadora da Síndrome de Down. Há tanto preconceito, tanta falta de informação que o Evaldo achou que a Joana levaria uma vida vegetativa ou morreria logo, essas coisas horríveis que são o pesadelo de pais e mães. Não só isso não é verdade como a Joana virou um caso exemplar. O filme do Evaldo virou bandeira pela inclusão social dos downianos. Do luto, ele partiu para a luta. Foi descoberto pelo Manoel Carlos, que incorporou a bandeira na novela Páginas da Vida e chamou a Joana Mocarzel para fazer Clarinha. O melhor de tudo é que Do Luto à Luta não constrange ninguém a gostar do filme porque é bem-intencionado. Ele é bom como cinema. É humano, delicado, divertido – você ri com o bom humor dos downianos que o Evaldo filma, não deles, o que seria muito diferente (além de preconceituoso). Evaldo deve estar hoje em estado de graça. Ontem à noite, À Margem do Concreto, sobre ocupações urbanas em São Paulo, foi o melhor documentário da Première Brasil de 2006. Evaldo prega outra bandeira, a da inclusão dos sem-moradia. No ano passado, Do Luta à Luta já havia ganhado no Recife. Este Evaldo é bom (com exceção de Mensageiras da Luz, seu filme sobre as parteiras da Amazônia, que é horrível, com aquela montagem final que o amigaço, em má hora, impôs ao Marcelo Moraes, que monta todos os seus filmes, certamente impulsionado pelo amor que tem por Dziga Vertov). Mas Evaldo deixou de ser a estrela da família Mocarzel, que agora é a Clarinha, perdão, a Joana.