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Menos, gente, menos

Luiz Carlos Merten

23 Junho 2008 | 09h29

Algumas pessoas amigas ficaram me perguntando, no intervalo – o que eu estava achando do Hamlet de Wagner Moura e Aderbal Freire Filho? Descobri que muita gente estava tendo na mesma asensação que eu. Coisas muito boas e coisas muito ruins. O muito bom é o próprio Shakespeare, a sua visceralidade – embora ‘Hamlet’ não seja, como reconhecem os especialistas, tão profunda quanto parece –, e o menos bom, ou ruim, vem de todo o ‘ruído’ da encenação, com base numa possibilidade do próprio texto, que é o palco no palco. Desde a aparição do espectro, no terraço, ‘Hamlet’ é a primeira grande peça noturna de Shakespeare. É também uma das mais populares, com ‘Romeu e Julieta’, que é uma peça mediterrânea do autor. Acho que foi Otto Maria Carpeaux, em sua grande história da literatura ocidental, quem disse que ‘Hamlet’ é única porque combina elementos filosóficos com os mais irresistíveis – e acho que ele diz: melodramáticos – recursos cênicos, incluindo o palco no palco, que é um recurso barroco. Na verdade, na obra de Shakespeare, ‘Hamlet’ é uma peça de transição e embora seja vulgarmente conceituada como uma tragédia da vingança – a maior de todas, quem sabe –, seus temas mais viscerais são a inteligência e o intelecto, que combinados ao tema aparente da vingança produzem as aparentes incoerências de que a peça é, ou seria, pródiga, conforme me disse o próprio Kenneth Branagh. Nunca entendi muito bem essas ‘incoerências’, mas sinto, pelas adaptações feitas no cinema e pela montagem de ontem, que a peça presta-se ao desequilíbrio. Aderbal Freire Filho havia feito uma montagem circense de ‘As Centenárias’, grande sucesso no teatro de Marieta Severo e Andréa Beltrão no Rio. Aqui, tenho a impressão que ele investe no conceito barroco do mundo como teatro, que é uma das possibilidades de leitura e interpretação fornecidas por Shakespeare. Só que ele fez tudo muito over, e eu fiquei com a sensação de que havia ali mais vulgarização do que pathos. Mas, enfim, quem sou eu? Wagner Moura deve perder dez quilos por noite, com toda a sua agitação em cena. Às vezes, eu, pessoalmente, tinha vontade de lhe pedir ‘menos, Wagner, menos’, mas a sinceridade e a entrega dele são genuínas e, no limite, não se pode desacreditar do seu Hamlet. Achei o Polônio excessivo – Robin Williams demais – e a loucura de Ofélia não me convenceu porque falta ali o olhar do louco. Arrisco-me a dizer uma besteira, mas, enfim, é o meu blog e vocês sempre poderão me contestar. Todo mundo é tão over que Carla Ribas, a Alice do filme de Chico Teixeira, não sei se por iniciativa própria ou instruída pelo diretor, ela ‘underplay’ e é uma benção ver aquela mulher linda e com uma presença cênica tão poderosa que não precisa rexagerar para passar seu texto. ‘Hamlet’ está recém começando. Não sei se terei paciência, ou mesmo tempo, de rever dentro de um mês, quando o espetáculo estiver mais afinado. Ontem, me pareceu irregular demais.