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Luiz Carlos Merten

07 Agosto 2009 | 13h36

CANCUN – Inicio ä tarde meu caminho de volta para o Brasil, onde espero chegar amanha de manha, mas nao vou ter muito termpo para esquentar a cadeira em Sao Paulo. No domingo, viajo para Gramado, onde comeca ä noite o festival de cinema. Nem tive tempo de comentar com voces meu dia de ontem. As entrevistas de 2012, algumas pelo menos, foram legais. Thandie Newton foi ótima, Chewetel Ejiofor também, mas eu confesso que nao tenho muita paciencia com Woody Harrelson. O cara é o maior bobo de si mesmo, nao leva nada a sério, nem ele, e eu confesso que isso me cansa. A entrevista de 2012 foi melhorzinha, porque, no dia anterior, houve uma coletiva com ele e o par de garotos de Zombieland que foi horrível. Um cara desabafou – disse que já entrevistou centenas de atores e diretores e nunca conseguiu fazer com que Woody Harrelson dissesse coisa com coisa. O cara até disse que achava isso legal. Eu nao consigo ser tao cool. Acho que é perda de tempo, para ele para mim. Por mais superficiais que sejam esses contatos, sempre se pode ter, ou fazer, alguma troca. Fiz entrevistas tao legais com Dustin Hoffman, Vanessa Redgrave, Liv Ullman e Jack Nicholson. Com Woody Harresolson, sorry, nao dá e eu nem o acho tao bom ator – exceto no filme do Milos Forman sobre o cara do porno – para contrabalancar. Fomos ontem a Chichen Itza. A visita ao sítio ecológico foi maravilhosa, com uma guia que nos decifrou os mistérios da piramide – ela disse que o termo é inadequado, piramides sao as do Egito; aqui, sao templos, Chichen Itza, na verdade, é um telescópio (no topo) e o maior e mais completo calendário que existe na Terra. Foi justamente esse o objetivo da visita proporcionada pela Sony. Alguém pode objetar que o sisterma, para usar um linguajar ideologizado, está tentando nos cooptar. Os maias criaram esse calendário que preve o fim do mundo em dezembro de 2012 e foi a fonte de inspiracao para que Roland Emmerich fizesse seu novo disaster movie. Volto a esse alguém objetando – a visita foi para legitimar o ponto de partida do filme, que de resto nao é outra coisa senao um blockbuster, um popcorn movie. Nao creio as coisas sejam tao simples. Roland Emmerich leva a sério seu cinema de advertencia e até fiquei curioso de ver o filme, mesmo que o diretor nao seja um dos meus favoritos – nem no quesito efeitos especiais. Mas ele é inteligente, articulado e pensa, intelectualmente, os filmes que faz. Voce pode criticar os filmes, Emmerich ouve mas rebate. Tem resposta para tudo. E nao foge a nenhum assunto. Por exemplo. Disse que se assumir como gay, sair do armário, foi a melhor coisa que lhe aconteceu. Até como diretor ele se sente hoje mais livre. Seus filmes podem continuar ruins (ele brinca com que nao gosta…), mas ganharam coracao, como ele diz. Emmerich confirmnou, sem nomear – nem era o caso -, que existem vários diretores gays da nova geracao em Hollywood. Sao amigos, se frequentam etc e tal. Sao intocáveis na indústria, enquanto os filmes fizerem sucesso. Mas ele nao acha possível que isso possa ocorrer com astros, que tëm de ficar no armário, sob pena de destruir a carreira. E Emmerich explica – para a garota ou garoto que vai ver um filme, tanto faz com quem o diretor vai para a cama. Mas o astro é um objeto de desejo. Eventualmente, a garota se projeta no escurinho do cinema e sonha que ele poderá ser o homem de sua vida. Se tiver outro homem na parada, se ele for assumidamente gay, o encanto estará quebrado. Faz sentido. Emmerich contou os efeitos de 2012 – sao cerca de 3 mil. Mas ele jura que os efeitos nao tem importancia nenhuma e nao seguram nenhum blockbustert, se o espectador nao estiver ligado nos personagens. Chewetel, Thandie e John Cusack, todos o elogiam. Sao atores que costumam trabalhar em filmes de orcamentos menores, com autores. Garantem que, no cinemao, ninguém é melhor do que Emmerich. Considerando que o tema do filme é o fim, e o consequente recomeco do mundo – o diretor define 2012 como uma nova versao da Arca de Noé -, foi curioso o que disse Cusack. O que ele gostaria que acabasse com este velho mundo? Os grandes estúdios, menos a Sony, que organiza o evento aqui no México…