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Luiz Carlos Merten

03 Janeiro 2010 | 23h43

Fui rever ‘Ervas Daninhas’ na Reserva Cultural e o filme de Alain Resnais me produziu o mesmo desconcerto da primeira cvez que o vi, em Cannes, no ano passado. Não concordo com a leitora que disse que é pretensioso demais. Pelo contrário, acho que o encanto de ‘Les Herbes Folles’ está na leveza que Resnais conseguiu imprimir ao relato, mesmo que, como o próprio autor em que ele se baseou, Christian Gailly, eu não consiga atinar muito bem com o significado do que assisti. Resnais, obviamente, está falando de desejo. André Dussolier deseja a personagem de Sabine Azema, ela resiste, mas a partir de determinado momento não só corresponde como passa à ofensiva. Na cena d avião, ela olha a braguilha aberta do cara, consequência de um acidente quando ele fechava o zíper, como a manifestação da urgência do seu desejo e a ideia lhe agrada. Ele, Dussolier, tem um passado que esconde, ou tenta reprimir, mas que irrompe com violência (como quando estoura os quatro pneus do carro de Azema). Na delegacia, sugere que o policial o possa ter identificado (ou reconhecido). Antes disso, revelou pulsões assassinas, querendo matar as garotas que o provocam e uma delas mereceria punição pelo mau gosto de vestir calcinha preta sob a calça branca! Ela é dentista e fica tão transtornada com tudo que desconta nos clientes. Adoro o narrador, a música (de Mark Snow), a contribuição de Dussolier e Azema, mas confesso que não consigo atinar com a interrogação final da menina – ‘Mamãe, quando eu for rato poderei comer ração?’ (ou coisa que o valha). A frase é tão arbitrária e enigmática quanto o letreiro com a citação de Flaubert – ‘Pelo menos, nós nos teremos amado’. Depois de haver assistido a ‘Hiroshima, Meu Amor’, no sábado (ontem), esse me pareceu agora um Resnais ‘menor’, mas eu coloco a definição assim, entre aspetas. Talvez a melhor maneira de usufruir o novo Resnais seja se entregando ao filme, sem necessidade de racionalizar, como disse, asliás, o próprio diretor na entrevista que me deu.