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Memória preservada

Luiz Carlos Merten

29 Setembro 2006 | 20h46

Acabo de assistir ao filme de João Batista de Andrade O Homem Que Virou Suco, na versão restaurada pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, em parceria com a Petrobrás. O Festival do Rio tem sido a vitrine de importantes restauros que, nos últimos anos, têm permitido preservar a memória do cinema nacional. Às vezes falo mal dos filmes do João Batista de Andrade, os recentes, porque alguns antigos, como este, são tão bons. Talvez algumas coisas, alguns excessos tenham ficado datados, mas O Homem Que Virou Suco não é uma peça de museu. Continua forte, vivo, atual. E a interpretação de José Dumont é antológica. Só achei sacanagem, o que nem me lembrava, que o nome do gringo dentro do filme, aquele que Severino rasga com a peixeira, no começo, seja Joseph Losey. Perguntei ao João o porquê do nome e ele disse que foi uma sacanagem com ele mesmo, porque adora o Losey. Americano, marxista e brechtiano, Losey entrou para a lista negra do macarthismo e precisou exilar-se, desenvolvendo sua carreira na Europa, mais exatamente na Inglaterra, com incursões pela França. Losey não merecia ser confundido com um gringo imperialista e o João sabia disso. Mas era o clima de 1979/80, marcado pelo radicalismo e o Losey entrou na trama por ser americano, como uma provocação do João com ele mesmo. Na próxima quarta, o Festival do Rio, o CPCB e a Petrobrás apresentam outro clássico restaurado – Como Era Gostosdo o Meyu Francês, de Nelson Pereira dos Santos, que, por sinal, preside o júri da Première Brasil de 2006.