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Luiz Carlos Merten

15 Março 2009 | 23h18

Estamos em meados de março e eu já estou convencido de que ‘Entre os Muros da Escola’ e ‘O Visitante’ estarão entre os melhores filmes de 2009, com ‘O Curioso Caso de Benjamin Button’ e sabe-se lá que outros grandes filmes veremos até o fim do ano. Revi ainda há pouco o filme de Tom McCarthy. Não é um filme com final feliz, não é nem mesmo um filme conclusivo, com um final e, quando assinalei isso para Richard Jenkins, na entrevista que fiz com ele – não coloquei no texto publicado no ‘Caderno 2’ por falta de espaço -, Jenkins disse que tanta gente ficou surpresa, nos EUA, que muitos espectadores lhe perguntaram se haveria um ‘Visitante 2’, quem sabe para responder às perguntas que aqui ficam em aberto. Jenkins está maravilhoso, a atriz palestina Hiam Abbas, que faz a mãe síria, e maravilhosa (além de ser uma bela mulher), mas hoje, mais do que nunca, eu senti que seria injusto não destacar que todo o elenco é homogêneo – na sua diversidade étnica – e muito bom. O rapaz sírio e a garota senegalesa são ótimos. Da mesma forma, acho que não dá para falar sobre o filmer de Laurent Cantet sem citar, como me fez meu colega Luiz Zanin Oricchio, a cena em que Suleymane e sua mãe que não fala francês vão à reunião do conselho da escola. A cena é muito forte e passa uma sensação que produz mal-estar. É como se os negros, os africanos, estivessem sendo julgados pela sociedade dos brancos. E o personagem do ‘prof’ mostra a coragem de François Gégaudeau e do diretor Cantet. Quando ele chama a garota de ‘pétasse’, por mais que queira transformar aquilo numa discussão semântica, sobre a diferença da linguagem erudita e da oral, das ruas, o desaforo está lançado e não tem volta. As consequências serão terríveis e Suleymane, que o diretor não olha com miserabilismo, será sacrificado. A exclusão do garoto, a partida de futebol no páteo da escola e o desfecho na sala de aula vazia são mais impactantes do que mil discursos. Aos cento e quantos anos? 114?, o cinema não esgotou sua capacidade de nos surpreender e maravilhar. E daqui a pouco vamos ter no Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade a confirmação – para muitos será revelação, como foi, para mim, quando assisti a ‘Z32’ – de Avi Mograbi. Teremos um novo Eduardo Coutinho, o documentário sobre o grupo mineiro Galpão, quem sabe ampliando aquela reflexão sobre os limites entre documentário e ficção de ‘Jogo de Cena’. Quanta expectativa!