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Luiz Carlos Merten

05 Junho 2008 | 14h03

Havia algo de melancólico, de triste, no rosto anguloso, hierático de Mel Ferrer, que grandes diretores como Fritz Lang, Jean Renoir, King Vidor e Henry King souberam utilizar, em benefício do ator e dos próprios filmes. Mel Ferrer morreu anteontem, aos 90 anos. Durante muito tempo, ele foi o marido de Audrey Hepburn e sua carreira, com certeza, foi ofuscada pela da mulher, a quem dirigiu em ‘A Flor Que não Morreu’ (The Green Mansions) e ela foi uma má escolha para fazer a mulher-pássaro do romance de W.H. Hudson, que bebe um pouco na fonte de ‘Tabu’. A mulher proibida, oferecida aos deuses, que não pode sair de seu santuário. Ou eu me engano muito ou ‘A Flor’ se utiliza da música de Villa-Lobos, ou pelo menos agora, quando tento pensar no filme, o que me vem é uma música de Villa servindo de fundo para belas imagens da selva sul-americana (amazônica, claro). Lá pela segunda metade dos anos 60, me lembro que ele fez um filme na Espanha, com Marisol, ‘Cabriola’. O forte de Mel Ferrer nunca foi a direção e eu vou ter de admitir que vocês estão certos, se me disserem que não era nem a interpretação. Mas o perfil romântico que ele tinha, um olhar meio atormentado, sofrido, percorre filmes que fazem parte do meu imaginário – ‘O Diabo Feito Mulher’ (Rancho Notorious), ‘Scaramouche’, ‘As Estranhas Coisas de Paris’ (Elena et les Homens), ‘Guerra e Paz’, ‘E Agora Brilha o Sol’, ‘A Queda do Império Romano’. Omito deliberadamente o que talvez tenha sido seu filme mais popular, ‘Lili’, de Charles Walters, como o ventríloquo por quem se apaixonava Leslie Caron. Além de ator e diretor, Mel Ferrer fez teatro e rádio. Foi assistente de David O’Selznick nos anos 40 e colaborou na produção de ‘Domínio de Bárbaros’ (The Fugitive), de John Ford. Um currículo interessante e eu gosto dele com Marlene Dietrich no western de Lang, com Ingrid Bergman no filme de Lang e com Audrey, com quem ainda era casado, no épico que o rei Vidor adaptou de Leon Tolstoi. Houve uma época em que eu zapeava pelo Telecine Cult e estava sempre passando ‘Guerra e Paz’. Amo duas cenas – a de Pedro (Henry Fonda) atravessando o palco da guerra, como Fabrizio Del Dongo em ‘A Cartuxa de Parma’, e a morte do príncipe Andrei, justamente o personagem de Melchior Gaston Ferrer, nome verdadeiro de Mel Ferrer, que nasceu em New Jersey, de pai cubano. A mãe dele, me lembro de ter lido na biografia de Audrey – não saberia dizer o nome dela nem a nacionalidade -, foi ativista pela liberação do álcool, contribuindo para enterrar aquele período que ficou conhecido como Lei Seca, nos EUA.